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Leonardo Sakamoto


Bolsonaro cumpre promessa de campanha e devolve Brasil a 1968

29.out.2019 - O presidente Jair Bolsonaro faz live no Facebook após reportagem da TV Globo sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco - Reprodução/Facebook Jair Bolsonaro
29.out.2019 - O presidente Jair Bolsonaro faz live no Facebook após reportagem da TV Globo sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco Imagem: Reprodução/Facebook Jair Bolsonaro
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

27/02/2020 21h47

Chocado com o comportamento inapropriado, grotesco, violento e inconstitucional do presidente da República? Pois não deveria. Ele está apenas cumprindo suas promessas de campanha.

Primeiro, Bolsonaro - surpreendentemente - não mentiu. Não neste caso.

O ocupante do Palácio do Planalto pode ser acusado de muitas coisas, de passar pano para miliciano até empregar funcionária fantasma em seu gabinete quando deputado, menos ter escondido suas reais intenções desde o início. Na campanha eleitoral, deixou claro que seu objetivo é fazer "o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos". Ou seja, na época da liberdade cerceada, dos direitos subtraídos, do Estado (mais) autoritário.

Segundo, porque muita gente, da direita à esquerda, cansou de avisar que ele não estava sendo apenas fanfarrão ao homenagear um dos maiores carniceiros da ditadura militar, o lamentável Brilhante Ustra, no plenário da Câmara dos Deputados. Não estava apenas fazendo piadas do tipo "Tio do Pavê" com seus comportamentos racistas contra indígenas e quilombolas. Não estava sendo mal compreendido quando disse que uma deputada era "muito feia" e por isso não merecia ser estuprada. Não estava tendo suas palavras adulteradas ao pregar, dia após dia, a violência como solução.

Pouco antes do segundo turno, anunciou "uma limpeza nunca vista na história desse Brasil" após eleito, prometendo banimento no melhor estilo "Brasil: ame-o ou deixe-o". E não podia estar sendo mais sincero. Como escrevi aqui naquele 21 de outubro, sua vitória iria abrir a temporada de caça a adversários políticos e ideológicos e ao jornalismo crítico e investigativo no país - o que, de fato, ocorreu.

As declarações sobre a "limpeza" dos adversários foram dadas logo após a repercussão de um vídeo em que Eduardo Bolsonaro, o deputado federal mais votado nas últimas eleições e filho do presidente, afirmou que "para fechar o STF basta um cabo e um soldado". Um ano depois, o mesmo Eduardo voltaria a chocar pela defesa de um novo AI-5 (o ato da ditadura que autorizou o Palácio do Planalto a fechar o Congresso, cassar mandatos, descer o cacete geral). Foi copiado, inclusive, por Paulo Guedes, o tal ministro da Economia que, segundo os ufanistas, iria trazer o presidente à razão. Na prática, se mostrou muito parecido com o chefe.

Poderíamos passar dias discutindo como ações e declarações de Bolsonaro têm sido usadas, há décadas, para atacar instituições, não sendo, portanto, novidade. E como uma parte da elite econômica do país, mesmo fazendo cara de nojinho, segue ao seu lado devido à promessa das tais reformas. Se a taxa de retorno for de 20%, pouco se importam se, ao final, a democracia for para o buraco.

Toda essa discussão, contudo, seria inútil. Melhor será se, independentemente do nosso posicionamento ideológico, buscarmos formas de garantir o marco civilizatório conquistado após a redemocratização. E protegermos, a todo custo, as instituições que garantem - ainda que de forma falha, imperfeita e insuficiente - os direitos previstos na Constituição Federal de 1988.

Há muito tempo este não é mais um debate entre esquerda e direita, mas entre civilização e barbárie. E a barbárie está avançando, comendo aos poucos as instituições de monitoramento e controle - Coaf, Receita Federal, Polícia Federal, Incra, Funai, Ibama, Procuradoria-geral da República.

No lance mais recente, Bolsonaro enviou para amigos vídeos chamando às manifestações contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, marcadas para o dia 15 de março. Descoberto, negou o que fez, como sempre, provando toda sua coragem e maturidade. E atacou a jornalista Vera Magalhães, que revelou o conteúdo. Agiu de forma obscena, mas cumpriu sua promessa de campanha, dando à nação ares de dezembro de 1968, quando foi decretado o AI-5.

O presidente vem, através de aproximações sucessivas, testando seus limites e a capacidade de reação das instituições e da sociedade. A maioria das respostas vem na forma de insuficientes notas indignadas ou tuítes de reprovação de outros poderes - que são praticamente uma prova de que Bolsonaro está correto em achar que as instituições são fracas, frágeis, covardes.

Diante dessas respostas, ele culpa terceiros por publicarem em seu nome ou diz que jornalistas mentiram, apesar de todos os fatos provarem o contrário. E nada acontece com ele. Com isso, segue atacando. E atacando. E atacando. E, a cada ataque, sente-se mais à vontade para fazer o que bem entender, tratando a República como o seu playground.

O Brasil merece mais do que um governo que não está nem aí para a Constituição que prometeu defender. Espero que o país perceba isso antes que o presidente, finalmente, termine o serviço para o qual acredita ter sido eleito.

Leonardo Sakamoto