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Bolsonaro insinua que Mandetta é substituível. Sim, assim como ele

O presidente Jair Bolsonaro durante live ao lado do presidente da Caixa, Pedro Guimarães - Reprodução/Facebook
O presidente Jair Bolsonaro durante live ao lado do presidente da Caixa, Pedro Guimarães Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/04/2020 22h00

"Paciente pode trocar de médico." Em uma live, na noite desta quinta (9), Jair Bolsonaro cutucou Luiz Henrique Mandetta, completando a frase que se tornou bordão do ministro da Saúde: "médico não abandona paciente".

O presidente tem razão. Caso um médico traia a confiança do paciente e coloque em risco a sua vida de forma desnecessária, pode e deve ser trocado. O mesmo vale para um ministro de Estado.

Da mesma forma, um presidente pode não querer abandonar o cargo, mas o país pode trocar de presidente. Principalmente, caso o mandatário traia a confiança do país e coloque em risco a vida alheia de forma desnecessária.

Preferencialmente, a troca ocorre nas eleições, período em que, pelo voto, o eleitor escolhe quem o governará. Em situações extremas, contudo, quando é visto como um risco, perdendo apoio popular e político, um presidente pode ser destituído do cargo por um processo de impeachment.

Isso ainda é distante em um Brasil com um presidente com 33% de aprovação, no qual 40% da população ainda acha que ele mais ajuda do que atrapalha no combate ao vírus - mesmo que continue agindo como se quisesse ver o circo pegar fogo, atuando contra políticas eficazes de contenção. Mas esse Brasil tem 141 mortes confirmadas nas últimas 24 horas por coronavírus. É diferente de um Brasil que pode estar ali, logo em frente, com mais de mil óbitos diários.

Um dos assuntos mais falados nas redes sociais, nesta quinta, foi a revelação de um vazamento não intencional (sic) de uma conversa entre o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, e o deputado federal Osmar Terra. Na gravação, obtida por Caio Junqueira, da CNN Brasil, ambos aparecem conspirando contra Mandetta.

Bolsonaro afirmou, na live, que não comentaria sobre Mandetta, Terra e Lorenzoni. Ao fazer isso, claro, acabou por comentar. E ao silenciar-se diante da conspiração, endossou-a.

O presidente usou o pronunciamento à nação, nesta quarta, para dizer que é o uso da cloroquina e não o isolamento social que vai evitar mortes. Quer levar o mérito dos resultados positivos da quarentena de governadores e prefeitos para o seu colo, apontando que a contenção da mortalidade trazida pelo isolamento é mérito, na verdade, do uso do medicamento. Um comportamento de parasita político, não de presidente da República.

Mandetta, por mais que tenha cedido para manter-se no cargo, continua sendo um entrave para os planos do presidente, tanto os de usar a cloroquina de forma ampla antes de estudos conclusivos, quanto de acabar com as medidas de isolamento social. Porque o trabalho de Mandetta tem 76% de aprovação segundo o Datafolha.

Vale lembrar Bolsonaro que cidadão troca de presidente quanto se sente abandonado - o que seria o caso de um presidente que depõe contra a saúde pública. Por enquanto, ele vai mandando recadinhos e atrapalhando o trabalho do assistente, mas engolindo seco também. Percebeu que mercado, Congresso, STF e população não vão gostar dessa substituição a esta altura da crise.

Daí, com um discurso adaptado para cada situação, vai se mantendo. Pois é reeleição acima de tudo. E autopreservação acima de todos.

Leonardo Sakamoto