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Leonardo Sakamoto

Sai Mandetta, entra Maia. Bolsonaro não dorme sem odiar alguém, diz Haddad

Presidente Jair Bolsonaro - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: ADRIANO MACHADO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

17/04/2020 15h05

"Bolsonaro demitiu Mandetta e logo já atacou Rodrigo Maia. Ele não consegue ir dormir sem odiar alguém." A declaração é de Fernando Haddad (PT), que conversou com a coluna enquanto o Congresso Nacional reagia aos ataques do presidente da República ao presidente da Câmara dos Deputados.

Bolsonaro acusou Maia de conspirar contra ele e não respeitar sua autoridade. Teria dito a parlamentares que conta com um dossiê de inteligência com informações de que haveria um golpe sendo tramado contra ele. O gesto tem sido visto também como cortina de fumaça diante da crise.

Algumas horas antes, o presidente exonerou Luiz Henrique Mandetta após semanas de divergências públicas entre ambos. O, agora, ex-ministro da Saúde vinha defendendo medidas de isolamento social contra o coronavírus recomendadas por cientistas e médicos e adotadas por outros países. Enquanto isso, Bolsonaro quer o retorno às atividades econômicas e a segregação apenas de idosos e pessoas imunodeprimidas.

A notícia da demissão foi recebida com panelaço contra Bolsonaro em grandes cidades.

Para Haddad, o presidente está perdido diante da pandemia e se preocupa apenas com a perda de popularidade. "Ele não sabe dizer o que vai mudar na política do país com a saída de Mandetta. Queria apenas alguém que não discordasse dele", avalia.

No evento de posse do ministro da Saúde, Nelson Teich (que Bolsonaro chamou duas vezes de [Nelson] Rubens, na tarde de ontem), o presidente defendeu a reabertura do comércio. "Peço a Deus para que nós estejamos certos lá na frente. Essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro, porque, se agravar, vem para o meu colo", afirmou nesta sexta (17).

Haddad avalia que Bolsonaro fez um jogo de palavras. E que ele vai terceirizar a responsabilidade aconteça o que acontecer.

"Caso a quarentena reduza a letalidade, ele dirá que ela não serviu para nada. Vai se aproveitar de sua eficácia para afirmar que sempre disse que a pandemia não era nada, uma 'gripezinha'. Ou seja, que a contenção da doença não se deve ao esforço de ninguém", avalia Haddad.

"Mas se aumentar consideravelmente o número de mortos, ele dirá que a quarentena não adiantou de nada, que ela não foi capaz de impedir e que todo o esforço de paralisação das atividades, que retarda sim a infecção, não valeu de nada", diz.

"Ou seja, independente do que aconteça, ele vai terceirizar a responsabilidade. Ele não é responsável por nada. Não toma nenhuma postura decisiva para resolver a questão."

O ex-prefeito e ex-candidato à Presidência da República afirma que Bolsonaro é caso único no mundo porque não haveria um único governante capaz de repetir às populações de seus países o discurso que ele faz para os brasileiros.

Alerta, contudo, que na medida que a pandemia progride, ele terá dificuldade de manter essa tática permanentemente. "E vai sim cair no colo dele."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL