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Discurso de Bolsonaro orienta sua tropa digital no ataque a Moro "traidor"

Jair Bolsonaro, em pronunciamento após demissão de Sergio Moro - Reprodução/TV Brasil
Jair Bolsonaro, em pronunciamento após demissão de Sergio Moro Imagem: Reprodução/TV Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

25/04/2020 04h05

O pronunciamento em que Jair Bolsonaro tentou responder às acusações do, agora, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, serviu também para orientar a tropa bolsonarista a se descolar do ex-juiz da Lava Jato e colar nele a pecha de alguém que pensa apenas em si mesmo.

A primeira parte de seu discurso, que parecia de improviso, foi na verdade construída para martelar em seus seguidores o trabalho que já estava sendo realizado pelo Gabinete do Ódio - como ficou conhecida a estrutura montada, no Palácio do Planalto, para defender o governo e atacar adversários nas redes sociais.

O objetivo foi passar a imagem de um Moro arrogante, interesseiro e oportunista, que nunca foi bolsonarista, muito menos conservador. Abaixo dez trechos do discurso do presidente que exemplificam isso (grifos meus). Depois, sigo com a análise. Ele se apresenta como um Bolsonaro humilde, que aparece como vítima de uma pessoa desagregadora e traidora (que é um dos piores xingamentos no Brasil):

1) "Hoje, pela manhã, por coincidência, tomando café com alguns parlamentares, eu lhes disse: Hoje vocês conhecerão aquela pessoa [Moro] que tem um compromisso consigo próprio, com seu ego, e não com o Brasil."

2) "Tive o primeiro contato com o senhor Sergio Moro, no aeroporto de Brasília, onde ele estava parado em uma lanchonete e eu fui cumprimentá-lo. Ele praticamente me ignorou. Confesso que fiquei triste, porque ele era um ídolo para mim. Eu era apenas um deputado, humilde deputado, como é ou como são a maioria dos que estão no parlamento brasileiro."

3) "Eu baixado no [hospital Albert] Einstein, recebi uma ligação de uma pessoa que queria fazer com que o senhor Sergio Moro fosse me visitar. Eu fiquei feliz, mas declinei. Ele não esteve comigo durante a campanha."

4) "Todos os cargos-chave [que Moro preencheu no ministério] são de Curitiba, inclusive a Polícia Rodoviária Federal. Logico, me surpreendeu. Será que os melhores quadros da PF todos estavam em Curitiba? Mas vamos confiar, vamos dar um crédito."

5) "Dizer ao prezado ex-ministro Sergio Moro, como o senhor disse hoje na sua coletiva por três vezes. O senhor disse que tinha uma biografia a zelar; eu digo a vossa senhoria que tenho um Brasil a zelar."

6) "Será que é interferir na Polícia Federal quase que exigir, implorar a Sergio Moro, que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo." [Nota: a apuração do atentado a Bolsonaro foi feita e refeita e a PF apontou que Adélio Bispo agiu sozinho.]

Moro e Bolsonaro - Pedro Ladeira - 29.ago.2019/Folhapress - Pedro Ladeira - 29.ago.2019/Folhapress
Imagem: Pedro Ladeira - 29.ago.2019/Folhapress

7) "Tem aqui um ministro meu tão importante quanto os demais, porque nós somos uma corrente, nenhum elo é mais importante que a própria corrente."

8) "Eu conversei com o senhor Sergio Moro, só eu e ele, como na maioria das vezes [nas] nossas conversas. Onde nós — eu sempre abri o coração para ele, eu já duvido se ele sempre abriu o coração para mim."

9) "Nas boas matérias, ele aparece. Más, se omite."

10) "Nós que estamos na linha de frente, nós, ministros, há algo mais importante que a sua biografia. É o bem-estar do seu povo, é o futuro dessa nação. Vamos levar, no sentido figurado, muito tiro na cara. Mas vamos cumprir a missão."

Os núcleos de pesquisa especializados no monitoramento do debate político na rede, como o DAPP/FGV, mostram que, a partir das 11h desta sexta (24), horário do pronunciamento de Moro, o apoio ao ministro demissionário e as críticas a Bolsonaro deram um salto gigantesco no Twitter.

Às 17h, o presidente deu sua resposta, alimentando e orientando seus seguidores. Postagens de pessoas e robôs já divulgavam o recado de Jair antes mesmo do discurso ser realizado, como a coluna acompanhou, indicando uma reação planejada que precisava do discurso na TV para bombar o conteúdo das redes.

Uma onda de publicações no Twitter e no Facebook afirmavam que Moro pensava mais em sua "biografia" do que no país - exatamente o argumento central do discurso do presidente. E, complementando-se mutuamente, trechos do discurso de Bolsonaro se tornaram tuítes para ataque digital.

Por exemplo, na hashtag "FechadoComBolsonaro", que atingiu mais de um milhão de tuítes, o juiz era chamado de "traidor do Brasil" e "egoísta". Houve também aqueles que o acusavam de ajudar a implementar uma "ditadura comunista" no Brasil.

De "Super Moro" a agente vermelho

Há intersecções entre o bolsonarismo e o lavajatismo, mas eles não ocupam, necessariamente, o mesmo espaço. Estavam unidos em um casamento de interesses, para usar uma metáfora cara ao presidente, em torno do antipetismo do que conectados por uma agenda programática comum.

Bolsonaro conta com um número duro de apoiadores, que já foi estimado pelo Datafolha em cerca de 12% da população. Estes dividem a mesma visão ultraconservadora de seu líder e estavam com ele muito antes do capitão decolar nas eleições de 2018.

A diferença de 24% entre essa base e o total de aprovação do presidente neste momento - 36%, segundo o Datafolha do último dia 17 - conta com uma participação mais expressiva da classe média baixa e de evangélicos, segundo a estratificação da pesquisa. Para esse grupo, historicamente, pautas econômicas e comportamentais têm mais impacto do que o combate à corrução - ele próprio um tema que entra nesse debate como ligado à moralidade. E é nisso que o presidente se fia.

Bolsonaro já está colhendo os frutos da renda básica emergencial de R$ 600,00, aprovada graças aos esforços do Congresso Nacional. A sua aprovação subiu de 33% para 36%, entre duas semanas de distância levantamentos, provavelmente por conta do aumento de popularidade junto aos trabalhadores informais que recebem o benefício. "No grupo dos que recebem até dois salários mínimos, a avaliação de Bolsonaro melhorou três pontos percentuais, e entre os que recebem de dois a cinco salários, ela saltou seis pontos", afirmou Mauro Paulino e Alessandro Janoni, do Datafolha.

Essa parcela da população pode lamentar a saída de Moro, mas lamenta ainda mais não receber nada do Estado para atravessar a pandemia. Tanto que as reclamações por problemas no pagamento do auxílio foram um dos principais temas do dia nas redes. As alas intelectualizadas à esquerda e à direita pensam que toda a sociedade só discutiu a questão Moro-Bolsonaro o dia inteiro, mas há vida fora da bolha.

A situação econômica vai definir se essa base estendida de Bolsonaro permanece com ele quando a pandemia passar. Combate à corrupção é importantíssimo, mas no cálculo pragmático, não enche barriga.

Leonardo Sakamoto