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"E daí?" de Bolsonaro vai ao Enem com vídeo que larga pobre à própria sorte

Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro sentados lado a lado - Pedro Ladeira/Folhapress
Abraham Weintraub e Jair Bolsonaro sentados lado a lado Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

04/05/2020 20h47

Milhares de alunos do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas estão com os conteúdos de aulas atrasados devido à pandemia de coronavírus. Mesmo assim, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Abrajam Weintraub não apenas mantiveram a realização do Enem 2020 - porta de entrada para universidades públicas - como estão veiculando uma campanha em que justifica para esses jovens que é legal ser largado à própria sorte.

Dizendo que "a vida não pode parar", que "é preciso ir à luta", "se reinventar", "superar", quatro jovens atores pedem para que todos "estudem", "de qualquer lugar", "de diferentes formas", pois "seu futuro já está aí".

A pandemia aumentou a defasagem existente entre estudantes de boas escolas particulares e aqueles de escolas públicas.

Enquanto a vida nas primeiras seguiu seu curso, com plataformas de educação à distância, rico material didático e professores minimamente treinados para aulas pela internet, na segunda, muitos estudantes foram obrigados a entrar em férias. Depois, a se conectar com uma realidade precária de ensino à distância, não por culpa dos docentes e dos gestores educacionais, mas pelas deficiências de parte do sistema público.

Se para o jovem pobre já estava difícil competir com os jovens ricos por uma vaga nas universidades, imagine agora em que ele não terá contato, de forma adequada, com todo o conteúdo do Ensino Médio?

Esses jovens não contavam com acesso aos mesmos subsídios e direitos para começarem suas caminhadas individuais e, portanto, partiam de lugares diferentes. Uns tendo tudo desde sempre, comida e livros. Outros tendo que escolher entre comprar comida ou um livro. E outros levando enquadro da polícia, que acha que eles roubaram o livro de alguém simplesmente por serem negros, após terem feito a escolha de comprá-lo ao invés da comida.

Os três podem chegar ao "topo". Mas se o primeiro caso alcança o cume mais vezes, o segundo é um em cada 100 mil e o terceiro um em cada milhão. Por isso, "histórias de superação" são contadas e recontadas à exaustão: são úteis para convencer a sociedade que se um consegue, todos podem. Dependeria apenas de cada um e de sua força de vontade e dedicação.

É por isso que "superação" é cobrado em propagandas do Ministério da Educação. Para livrar o governo de sua própria responsabilidade. Na verdade, o governo trabalha com a ideia de meritocracia hereditária.

O pessoal da escola pública não vai sofrer por causa de cotas, dizem alguns. Primeiro, cotas continuam sendo um grande funil - sua existência compensa apenas parcialmente a grande desigualdade entre pobres e ricos, brancos e negros. Segundo, se elas estão mais presentes em universidades federais, o mesmo não pode ser dito das estaduais.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, conseguiu se tornar réu em um processo por racismo no Supremo Tribunal Federal, ao ofender chineses, mas não foi capaz de contribuir com um plano para a expansão da banda larga para as periferias - o que ajudaria os alunos neste momento. Ou desenvolver um canal digital federal para a educação. Ou ainda aprimorar a TV Escola ao invés de tê-la destruído.

Ele não consegue mostrar uma medida exitosa no sentido de garantir que os estudantes mais vulneráveis tenham mais condições de aprender. Pelo contrário, a manutenção da data do Enem 2020 é mais uma ação no sentido da política do confronto travestida de manutenção do status quo.

Por fim, o ano letivo não precisa terminar em dezembro. Excepcionalmente, ele pode avançar. Da mesma forma, avançariam os calendários do Enem e das universidades públicas.

Uma geração de profissionais não será perdida com o adiamento da prova, como insinua a propaganda do governo. Uma geração será perdida com a manutenção de um governo irresponsável, cuja política para a educação é ameaçar estudantes e professores em redes sociais.

Leonardo Sakamoto