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Coronavírus: Brasil mostra que é projetado para matar pobre em pandemia

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus - Foto:Michael Dantas/AFP
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Imagem: Foto:Michael Dantas/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

06/05/2020 20h26

O Brasil mostrou, nesta quarta (6), porque é um país projetado para matar pobre em pandemia. A vida tratou até de desenhar usando exemplos para aqueles que acreditam que o coronavírus atinge todos de forma igual. O vírus é democrático, mas o Brasil, não.

Enquanto o país batia novo recorde de mortes diárias pelo coronavírus, o IBGE divulgava dados mostrando que nossa concentração de renda continua em patamares pornográficos. Desigualdade que fica ainda mais gritante na epidemia. Por exemplo, em Belém (PA), o poder público abre caminho para empregadas domésticas pobres voltarem ao trabalho antes da hora, enquanto os ricos devem ser os únicos com acesso livre a hospitais - a um avião de distância.

O Brasil registrou 615 óbitos por covid-19, totalizando 8.536 até agora, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O número oficial, subdimensionado e atrasado, mostra uma aceleração no ritmo de mortes, principalmente nas periferias das grandes cidades. Também nesta quarta, o IBGE divulgou os números consolidados sobre o rendimento do trabalho em 2019, mostrando que o 1% mais rico ganhou, em média, 33,7 vezes o que recebeu o 50% mais pobre. Ou seja, R$ 28.659 frente a R$ 850.

Também nesta quarta ficamos sabendo que o prefeito de Belém (PA), Zenaldo Coutinho (PSDB), anunciou que a atividade de empregada doméstica vai ser considerada essencial durante a pandemia. Elas podem, portanto, serem chamadas para voltar a trabalhar nas casas de seus patrões em meio ao pico da infecção. Isso decorre de um decreto estadual, do governador Hélder Barbalho (MDB).

Na mesma Belém de Coutinho e Hélder, reportagem de Aiuri Rebello, do UOL, revelou que aumentou a procura por fretamento para o serviço de UTI aérea para deslocar pacientes em direção a São Paulo e Brasília diante do colapso do sistema de saúde local. Manaus - que está enterrando mortos em valas coletivas com a ajuda de retroescavadeiras - vivencia a mesma tendência. A maior parte desse tipo de fretamentos ainda é via Sistema Único de Saúde, mas os mais ricos e as empresas em que trabalham têm usado o serviço, que aumentou de 30% a 100%.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, do IBGE, também informou que a parcela dos 10% que ganham mais detém 42,9% da massa de rendimentos, enquanto que os 10% mais pobres contam com apenas 0,8% dessa massa. O Nordeste (R$ 569) e o Norte (R$ 633) são as regiões com as menores médias de rendimento para a metade da população mais pobre.

Um voo entre Belém a Brasília de uma UTI com asas custa a partir de R$ 40 mil - o equivalente a 63 meses de ganhos do 50% mais pobre no Norte. Já de Manaus a São Paulo, o preço é a partir de R$ 80 mil - ou 10 anos e seis meses de trabalho de pobre. Isso sem incluir a fatura do hospital. Sem o SUS, só quem tem.

O prefeito de Belém afirmou que categorizar o trabalho doméstico como essencial visa a atender "pessoas que precisam, pela necessidade de trabalho essencial, ter alguém em casa". Essa é a justificativa que foi historicamente usada para que as empregadas domésticas não contassem com os mesmos direitos de outros trabalhadores: a classe média não pode pagar por isso. Mantem-se dessa forma, nas costas de mulheres negras e indígenas pobres o custo de reprodução da sociedade. Desde a senzala.

Ressalte-se que o então deputado federal Jair Bolsonaro votou contra a PEC das Domésticas, que estendeu direitos de outros trabalhadores a essa categoria, em 2013.

Organizações de trabalhadores alertaram o Congresso Nacional para não aprovar uma emenda constitucional para limitar o crescimento de gastos públicos em saúde, uma vez que a situação era gritante e ficaria mais ainda. Alguns deputados colocaram na mesa a alternativa de taxar dividendos recebidos de grandes empresas para compensar os recursos para a área. O andar de cima riu. Agora, ele sai voando para outras cidades diante da falta de estrutura.

Como fica o pobre agora, sofrendo as consequências de uma política que privilegiou a concentração de rendas em detrimento à melhoria nos serviços públicos e gratuitos? Como diria o personagem Justo Veríssimo, do saudoso Chico Anísio, "que se exploda".

A primeira vítima fatal de covid-19 no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica pobre, moradora de Miguel Pereira, que percorria semanalmente 120 quilômetros até a casa em que trabalhava no rico Leblon. Sua empregadora havia visitado a Itália e aguardava o resultado do exame para coronavírus - que acabou dando positivo. "A patroa não avisou para ela que achava que estava doente", disse o irmão da vítima à Mariana Simões, da Agência Pública. Em outras palavras, não a reconheceu como ser humano.

A desigualdade dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e as outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração. Leva à percepção de que o poder público existe para servir aos mais abonados e controlar os mais pobres. Ou seja, para usar a polícia e a política a fim de proteger os privilégios do primeiro grupo, usando violência contra o segundo, se necessário for. Com o tempo, a desigualdade leva à descrença nas instituições. O que ajuda a explicar o momento em que vivemos hoje.

O triste é que, para muitos, nada disso importa. Preferem um não-país do que dividir custos em épocas de paz. E na época da "guerra", é cada um por si e Deus acima de Todos. A desigualdade social, que seria motivo de vergonha em qualquer lugar civilizado, aqui é razão de orgulho. O importante para uma parte da população, tanto a que está no topo quanto a que sonha em estar lá, não é reduzir essa diferença, mas garantir que ela seja devidamente glamourizada e a ascensão social, mitificada. Assim, o indivíduo passa a não desejar justiça social coletiva e redistribuição, mas um lugar ao sol para si mesmo.

E cai em um fatalismo, comprando discursos de que essa pandemia do diabo derrubaria o sistema de saúde de qualquer jeito. A questão é que, com mais recursos e uma estrutura melhor, seria possível empurrar esse colapso e salvar uma quantidade maior de vidas. Desde que elas importassem realmente.

O problema não é alguém ter um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro mora em um de 40. O que desconcerta é uma sociedade que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto o outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma ocupação de terreno, no Grajaú, em Eldorado dos Carajás, onde for.

Da mesma forma, o absurdo não é pessoas que podem ter acesso a bons tratamentos em outras cidades, mas isso acontecer enquanto uma parte da sociedade está esperando para morrer em casa pela falta de leitos em hospitais públicos. Ou indo para o sacrifício na casa de terceiros em nome da ordem das coisas.

Leonardo Sakamoto