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Covid-19: Após 10 mil mortes, Bolsonaro insiste na tática da "gripezinha"

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/05/2020 21h15

O Brasil chegou, neste sábado (9), a 10.627 mortes por covid-19. O número é apenas uma referência - não sabemos se a mortalidade real é duas, cinco, nove vezes maior devido à subnotificação e à falta de testes. Enquanto isso, o presidente foi visto andando de jet ski nas águas do lago Paranoá, em Brasília, após ter dito que era mentira um churrasco que havia anunciado. Quem se desespera com essas atitudes, é bom jair se acostumando: ele vai continuar nessa toada "é só uma gripezinha" até que as quarentenas caiam, a pandemia passe ou ele seja impedido.

Falar de churrasco no final de semana do Dia das Mães para uma sociedade cansada das medidas de isolamento social é um estímulo para a volta à normalidade antes da hora. Andar de jet ski atiça o naco irresponsável do andar de cima, que já organiza festas, acreditando que sua conta bancária lhes traz privilégios sanitários. Essas ações seguem a mesma linha de contaminar fãs em manifestações que pedem a volta da ditadura ou cumprimentar transeuntes em visitas aleatórias às ruas de Brasília.

Pode-se acusar Bolsonaro de genocida, mas não de incoerente. Pois esse é o seu posicionamento desde sempre. Não há diferença disso e do pronunciamento, em cadeia de rádio e TV, em 24 de março, quando chamou a pandemia de "gripezinha" e "resfriadinho". Ou da entrevista à CNN, no dia 15 de março, quando a qualificou de "histeria". Ou da declaração em um evento, em Miami, nos Estados Unidos, no dia 12 de março, no qual a tratou como mera "fantasia". O menosprezo à covid-19 é parte fundamental de sua narrativa desde o começo.

Diariamente, Bolsonaro faz de tudo para que a população brasileira volte à normalidade. Não apenas pressionado por um naco tosco da elite econômica, que se compadece com a "morte de CNPJs" e não de pessoas, mas pensando principalmente em seu futuro político. Neste momento, o desemprego faz parte desta crise. Mas se não conseguir revertê-lo até 2022, dificilmente se reelege.

Enquanto estiver pagando o auxílio emergencial de R$ 600,00, terá a simpatia de uma parcela pobre da população - mesmo que os méritos sejam do Congresso Nacional. A pesquisa Datafolha já apontou aumento em sua aprovação entre quem ganha abaixo de cinco salários mínimos.

Para esse grupo, Bolsonaro diz que a pandemia irá matar algumas pessoas de qualquer jeito, mas que os números anunciados por seu próprio Ministério da Saúde não são confiáveis porque contam com dados de Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, governados por adversários. Ao mesmo tempo, seu Gabinete do Ódio bomba notícias falsas de caixões sendo enterrados vazios.

Como as quarentenas reduzem o número de mortos, mas não fazem milagres (ainda mais com um presidente estimulando as pessoas a irem às ruas), Bolsonaro sempre vai defender que elas apenas acabaram com empregos.

Em sua narrativa, ganha de qualquer jeito. Mesmo a possibilidade de "caos" que se avizinha pelo desemprego, que ele citou hoje em suas redes sociais, o beneficia. Caso tenhamos saques em busca de comida e protestos contra o governo, pouca coisa pode impedi-lo de baixar o cacete e assumir de vez o autoritarismo que transpira por seus poros.

Por não saber governar, Bolsonaro se dedica de corpo e alma ao "Ministério da Verdade", como alertei há mais de um ano. Apresentado no romance "1984", de George Orwell, isso tem a função de ressignificar a história e qualquer notícia que seja contrária ao próprio governo.

O "Ministério da Verdade" de Bolsonaro aponta para uma pandemia e diz que não há nada lá com o que se preocupar. Pede para isolarmos idosos sem dizer como isso será feito em favelas. Dizem que a imprensa e as instituições, como o Supremo Tribunal Federal, é que está jogando o país no abismo - quando, na verdade, ele tem funcionado (às vezes) como freio às suas sandices.

Neste momento, o presidente deve estar pensando qual sua próxima ação midiática para demonstrar normalidade.

Considerando o novo normal no Brasil, sugiro que ele vá ajudar a cavar sepulturas. Ao menos, seu ato trará algo de útil.

Leonardo Sakamoto