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Covid: Elite vai ao STF mais preocupada com "morte de CNPJs" do que de CPFs

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/05/2020 14h31

Para celebrar o recorde de mortes diárias por covid-19, quebrado nesta quarta (6), com 615 óbitos, Jair Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes e 15 representantes de associações empresariais foram fazer pressão no Supremo Tribunal Federal pela reabertura da economia.

Uma das frases que marcaram a reunião, dita por um dos representantes, foi de que "haverá morte de CNPJs" mais para frente se não houver um relaxamento da quarentena agora. Vale lembrar que um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica pode ser cancelado ou suspenso. Mas uma pessoa, não. As 8.536 que morreram até agora por decorrências do coronavírus não podem ser reabertas ou retomadas.

O presidente Bolsonaro afirmou que a indústria está na UTI e que, se a quarentena não for relaxada, "depois da UTI vem o cemitério".

Seria ótimo que se preocupasse com vidas da mesma forma que se preocupa com o seu futuro político - que, acredita, depende do que acontecerá daqui para frente na economia. Neste momento, estão acabando as vagas nas UTIs para pessoas com covid-19 nos estados mais atingidos. Em locais como Belém e Manaus, os mais ricos já voam para procurar leitos e respiradores em São Paulo e Brasília, enquanto os mais pobres morrem em casa.

Mesmo na capital paulista, os médicos esperam em breve um colapso no atendimento. O Ministério da Saúde poderia ter se adiantado e investido bem mais recursos na criação de leitos e na contratação de pessoas, mas não fez. E o atual ocupante dessa pasta parece um tanto quanto perdido.

No Brasil de Bolsonaro, se há UTI para grandes empresas, o mesmo não se pode dizer para todas as pessoas. Ou seja, para muita gente, depois da "gripezinha" vem direto o cemitério. Mas, como ele mesmo disse na reunião, "nós temos um bem muito maior que a própria vida que é a nossa liberdade".

Dias Toffoli ouviu o pedido de empresários, de que era necessário "colocar a roda para rodar". E que há uma "crise de demanda" - não há quem compre uma vez que parte das pessoas está em casa para se proteger e consome menos produtos e serviços. Bolsonaro disse a ele que alguns estados teriam ido longe demais nas medidas de isolamento, citando desemprego e perda de renda de informais como consequência. O presidente vem criticando diuturnamente governadores e prefeitos por conta das quarentenas, principalmente João Doria e Wilson Witzel - que contam com bombas-relógio a explodir nas densas periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro.

No que pese sua análise otimista de que as instituições estão funcionando normalmente e que o país vem dando uma resposta à altura da crise, o presidente do STF sugeriu ao presidente da República que trabalhe em conjunto com outros poderes, incluindo Estados e municípios, no planejamento do retorno às atividades. Ou seja, que escute quem dele discorda.

Incluindo a própria corte. O STF havia decidido, por unanimidade, no dia 15 de abril, que governadores e prefeitos têm autonomia para regulamentar medidas de isolamento social. Isso foi uma resposta a Bolsonaro que, através da Medida Provisória 926, havia puxado apenas para si a definição de quais são os serviços essenciais - que não param durante a pandemia.

O presidente afirma que não existe polarização entre vidas e empregos. Mas toda vez que trata do assunto, parece defender apenas a questão econômica, esquecendo que o problema é mais amplo. As coisas estão interligadas, mas há prioridades.

É um comportamento equivocado, pois se o Brasil não atender às recomendações médicas e científicas quanto à forma de retorno à vida normal, as consequências da catástrofe humanitária vão marcar nossa economia por anos. Melhor seria fechar-se de forma firme por pouco tempo do que cambalear por anos. E nunca é demais lembrar: o ritmo de mortes pela covid-19 está apenas começando sua subida por aqui.

Leonardo Sakamoto