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PF teria ajudado Bolsonaro a vencer eleição ao "esconder" Queiroz

Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz fazem arma com as mãos - Reprodução
Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz fazem arma com as mãos Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

17/05/2020 11h48

Um delegado da Polícia Federal teria informado à família Bolsonaro que o seu faz-tudo, Fabrício Queiroz, seria um dos alvos de uma operação da instituição em meio às eleições de 2018. Não apenas isso: declarando-se simpatizante do capitão, teria sugerido a demissão de Queiroz e postergado a ação para o final do ano de forma a não atrapalhar a caminhada do então deputado federal em direção ao Palácio do Planalto.

Se essas acusações do empresário Paulo Marinho, em entrevista que concedeu a Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo, deste domingo (17), forem verdadeiras, esse crime ajudou Jair a chegar lá. Suplente do senador Flávio Bolsonaro, ele foi escanteado assim que o presidente chegou ao poder.

Para a sorte do mandatário, de acordo com advogados eleitorais consultados pela coluna, a comprovação da acusação não teria repercussão jurídica sobre sua eleição porque a questão não foi trazida à Justiça Eleitoral dentro do prazo de 15 dias contados da diplomação da chapa, data limite para este tipo de questionamento.

Quando há suspeita de fraude na obtenção de mandatos eleitorais, a Constituição Federal prevê que é cabível uma ação. Mas, no caso de Bolsonaro, ela deveria ter sido ajuizada até 25 de dezembro de 2018. Mesmo que surjam elementos, processualmente, por uma regra constitucional, não é possível abrir uma ação que leve à anulação das eleições. Isso, contudo, não reduziu as críticas da oposição para o que consideram um favorecimento indevido.

"Conforme suspeita, suplente de Flavio Bolsonaro confirma que PF alertou-o, entre o 1° é o 2° turno, de que Queiroz seria alvo de operação, que foi postergada para evitar desgaste ao clã durante as eleições. Isso se chama FRAUDE!", afirmou o candidato derrotado, Fernando Haddad (PT), neste domingo nas redes sociais.

O líder do PSB na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon (PSB-RJ), disse que as denúncias feitas por Paulo Marinho são gravíssimas. "Mostram que membros da Polícia Federal contribuíram para obstruir a Justiça de forma a influenciar no resultado das eleições de 2018, beneficiando Bolsonaro. Tudo isso precisa ser investigado para que Bolsonaro responda por seus crimes".

Essas acusações apontam que Bolsonaro não interveio na Polícia Federal para instalar no comando da instituição no Rio de Janeiro alguém que o informasse com antecedência de investigações que atinjam a ele e seus filhos. O presidente da República agiu para que esse tipo de serviço, que já havia sido prestado a ele com eficácia, continuasse à disposição.

Ou seja, o presidente sabe muito bem do que aliados na PF do Rio são capazes de fazer porque já desfrutou disso anteriormente. Caso a operação Furna da Onça tivesse sido deflagrada entre o primeiro e o segundo turnos de 2018, o impacto em sua candidatura - que vendeu a imagem de um deputado federal honesto - seria devastador.

Afinal, como explicar à população que ele colocou no gabinete do filho na Assembleia Legislativa do Rio uma pessoa para desviar recursos públicos, gerenciando as "rachadinhas" de salários de servidores dos mandatos da família? Isso sem contar o emprego, na equipe de Flávio, de familiares de Adriano da Nóbrega, o falecido líder do grupo de matadores "Escritório do Crime" - que, aliás, dominava uma área que despejou votos na família Bolsonaro na zona oeste do Rio.

A divulgação dessa novidade seria bem mais útil para o debate público naquela época, inclusive, do que o empurrãozinho amigo que o então juiz federal e futuro ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, tentou dar ao requentar a delação de Antonio Palocci durante a eleição, o que atingia o candidato do PT. Ironicamente, Bolsonaro veio a fritar Moro para ter controle sobre a Superintendência da Polícia Federal no Rio.

De acordo com Paulo Marinho, o informante na PF do Rio aconselhou tanto a demissão de Queiroz (que estava no gabinete de Flávio, no Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), quanto a de sua filha (lotada no gabinete de Jair, em Brasília). O que veio a acontecer no dia 15 de outubro daquele ano.

Isso traz subsídios para reforçar a investigação sobre a razão pela qual o presidente desejava tanto interferir na Polícia Federal. Mas também mostra que mais uma irregularidade pode ter contribuído para a eleição de Jair, somando-se ao disparo em massa de mensagens via WhatsApp, que foi contratado por empresários aliados.

Na busca incessante pela indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, Augusto Aras, tem sido mais defensor de Bolsonaro do que foi o ex-advogado-geral da União e, hoje, ministro da Justiça, André Mendonça - outro nome forte para se tornar ministro. É necessário acompanhar para ver se ele ignora essas informações, aposta mais provável se não houver pressão social e política, ou cumpre seu papel constitucional.

Partes das elites política e econômica brasileiras sempre colocaram seus interesses particulares acima do respeito às instituições da República. O diferencial da "Era de Bolsonaro" é que isso ocorre à luz do dia, com justificativas estapafúrdias vindas do presidente e de seus aliados. E quanto mais acuados pelas denúncias de seus crimes, mais mostram os dentes afiados de um autoritarismo que adoraria ganhar às ruas e se impor.

Neste domingo, o presidente participou de um novo ato em seu apoio. Da rampa do Palácio do Planalto, saudou um reduzido grupo que também gritava palavras de ordem antidemocráticas, pedia um novo AI-5 e a prisão de membros de outros poderes. E, assim, ao insultar as instituições, vai erodindo-as mais um pouco.

Polícia Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Receita Federal, Procuradoria-Geral da República. Jair Bolsonaro, desde que assumiu o cargo, vem dobrando instituições de monitoramento e controle em nome de seu projeto de poder. As instituições que não podem ser domesticadas são compradas (como é o caso do centrão no Congresso Nacional) ou consideradas inimigas - o Supremo Tribunal Federal tem sido alvo de pedidos de fechamento por parte de bolsonaristas fanáticos.

A promiscuidade é tão visível que passou a fazer parte da paisagem da República. E, para contornar o clima de incredulidade, é só gritar "fake news", jogar uma nuvem de fumaça ou usar os militares para darem mensagens atravessadas sobre o futuro da democracia.

Leonardo Sakamoto