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Atendimento do Samu relacionado a suicídio cresce durante a pandemia

Suicidio; depressão - iStock
Suicidio; depressão Imagem: iStock
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

31/05/2020 02h00

O atendimento a casos de suicídio e de tentativa de suicídio aumentou com a pandemia de coronavírus. Essa é a avaliação dos socorristas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na capital paulista de acordo com Francis Fujii, seu diretor médico.

Mesmo que já fosse esperado um crescimento nesse tipo de chamado, devido à incerteza trazida pela covid-19 e à solidão favorecida pelo isolamento social, a situação não deixa de preocupar. Especialistas ouvidos lembram, contudo, que distanciamento físico não significa manter silêncio. Ainda mais na era dos aplicativos.

Apesar do Samu não contar com estatísticas sobre o tema, a avaliação de socorristas da capital é confirmada por outras bases do serviço, ouvidas pelo UOL, no litoral e no interior do estado. A reportagem solicitou dados à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, via Lei de Acesso à Informação, e aguarda resposta.

O risco de suicídio em uma sociedade sob estresse não é problema de rico, ao contrário do que o equivocado senso comum aponta. "Aqui os casos atingiram principalmente pessoas de classes C e D", afirma um dos socorristas que constatou o aumento da incidência desses atendimentos no litoral.

"Temos ouvido muito sobre a falta de diálogo dentro de casa, situação aprofundada pela crise, com famílias sendo obrigadas a conviver o tempo todo, muitas vezes em residências muito pequenas", avalia.

Uma análise publicada no Journal of the American Medical Association - Psychiatry, em abril, nos Estados Unidos, trata dos efeitos colaterais das necessárias medidas de isolamento e distanciamento social por conta da covid-19 que podem aumentar o risco de suicídio.

"Mortalidade por suicídio e Covid-19 - uma tempestade perfeita?" aponta, entre eles, o estresse econômico e a incerteza sobre a própria subsistência; a solidão e a desconexão social; a dificuldade no tratamento da saúde mental devido à sobrecarga do sistema pelos pacientes da pandemia; o medo diante de doenças pré-existentes; e o aumento na ansiedade diante da doença.

Mas também traz formas de prevenção, lembrando que distanciamento físico não precisa significar suspensão de contatos, e que a conexão social deve ser mantida através de vários meios - do telefone a aplicativos de vídeo. Também sugerem o acompanhamento por teleconferência por parte de profissionais de saúde mental.

O problema não é só a solidão, mas a incerteza

A pandemia está quebrando nossas certezas, mostrando que muitas das premissas com as quais construímos nossa vida não se sustentam, como, por exemplo, "se eu fizer as coisas certas, tudo vai dar certo" ou "sou uma pessoa do bem e as coisas não vão me atingir". A realidade contesta essas premissas sem que tenhamos tempo de refletir e reorganizar nossa vida. Isso faz com que muitos sintam dificuldade de cuidar da própria vida ou de enxergar uma luz no final do túnel. Perdemos nortes. Surge desalento.

A avaliação é de Maria Helena Pereira Franco, professora titular de Psicologia Clínica e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (Lelu), da PUC-SP. Ela recomenda que busquemos nossa rede de apoio, aquela que entendemos que nos sustenta, seja ela qual for. Família, amigos, vizinhos, igreja.

"Por que é com ela que a gente pode abrir o coração e pode chorar. Temos que ativar e fortalecer os vínculos que nos são significativos. Sentir-se só é péssimo. E sentir-se só não é uma questão física, você pode estar em casa com muita gente da família e se sentir só", explica. Ela também diz que é necessário aprender novos jeitos de se relacionar com essa rede de apoio. Para tanto, defende conversas em vídeo usando WhatsApp, Zoom, Skype ou qualquer outra plataforma.

Solidão1 - Jon Krause/The New York Times - Jon Krause/The New York Times
Imagem: Jon Krause/The New York Times

Nem sempre há com quem conversar. Nesse casos, serviços como o Centro de Valorização da Vida (CVV) - organização que presta apoio emocional e atua na prevenção ao suicídio - podem ser acionados. Ele atende pessoas que precisem conversar, gratuitamente, 24 horas por dia, com garantia de sigilo.

"Uma das principais queixas das pessoas que nos procuram, independente da época da pandemia, é que estavam cercadas de outras pessoas, mas se sentiam sozinhas. Procurar ajuda de alguém neste momento é mais relevante ainda, porque as pessoas podem estar efetivamente sozinhas", afirma Adriana Rizzo, voluntária e porta-voz da organização.

De acordo com ela, as reclamações sobre o coronavírus não têm ocorrido contra a quarentena em si, mas sobre a incerteza e o medo em relação ao futuro. Em termos nacionais, não houve aumento significativo de procura pelo CVV, com os números mantendo frequência mensal de 10 a 12 mil contatos por dia.

Além de cuidar de si, o que fazer pelos outros

Ficar de olho em comportamentos diferentes é uma das recomendações da professora da PUC-SP para protegermos quem está em nossa rede.

"Combinar no grupo da família que todo mundo que mora sozinho tem que dar bom dia é uma possibilidade. Prestar atenção em comportamentos que sinalizem mudanças e diferenças de hábitos, como deixar de dar notícias. E, a partir daí, estabelecer contato", afirma. "Por isso que é importante a rede de apoio, pois nela há intimidade de perguntar como o outro está."

Adriana Rizzo sugere que permaneçamos atentos às pessoas à nossa volta, lembrando que o nosso "entorno" não é uma questão física, mas social e pode envolver pessoas a milhares de quilômetros de distância.

"Se alguém fizer algum comentário que mostre que não está bem, dê atenção a essa pessoa. Não ignore pedidos de ajuda", recomenda. "E lembre-se: não critique, nem julgue pelo que for relatado." Ou seja, não é porque aquele sofrimento parece irrelevante e despropositado para você que é para outro. Empatia é a palavra, coloque-se no lugar dos outros.

Isso é corroborado por Maria Helena Pereira Franco, que pede para demonstrarmos cuidado e atenção, sem julgar ou avaliar.

"Olha, eu tô ligando para você porque faz tempo que não te ouço. Como você está? Quer falar mais sobre isso que você acabou de me dizer? Ou seja, ofereça uma escuta. Alguém que escute e ecoe algumas das falas ajuda muito nessa hora", afirma. "Ouça as dificuldades, o medo do outro. E não diga, faça isso ou faça aquilo."

O CVV tem cerca de 4 mil voluntários e a ligação pode ser feita de um telefone celular mesmo sem crédito ou através de telefones públicos sem custo através do número 188 (24 horas) ou pela rede.

Solidão 3 - iStock - iStock
Imagem: iStock

Leonardo Sakamoto