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Cheque à primeira-dama: Bolsonaro precisa comprovar o empréstimo a Queiroz

Fabrício Queiroz no momento da prisão - Reprodução
Fabrício Queiroz no momento da prisão Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

20/06/2020 12h58

Entre as primeiras "movimentações atípicas" nas contas de Fabrício Queiroz, detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e reveladas em dezembro de 2018, ficamos sabendo que ele havia depositado um cheque de R$ 24 mil para a primeira-dama, Michele Bolsonaro. A justificativa do presidente foi de que isso era parte da devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que ele havia feito ao amigo de longa data e faz-tudo da família. Como alguém que movimentou milhões precisa de uma ajudinha desse porte, é um mistério.

Em uma entrevista a jornalistas na porta do Palácio do Alvorada, em dezembro do ano passado, Bolsonaro voltou a tratar do assunto por conta própria, afirmando que ele havia emprestado o dinheiro, que conhecia Queiroz desde 1985, que foi seu soldado na brigada paraquedista.

Jair nunca mostrou publicamente qualquer coisa, um extrato que fosse, para sustentar suas alegações. Nem contou como o empréstimo foi quitado. Ou se ele e a primeira-dama prestaram informações a alguma autoridade sobre o caso. "No necesita la garantia, la garantia soy jo", diria o antigo comercial de videocassete.

Questionado por um repórter se tinha algo que comprovasse o empréstimo feito a Queiroz e devolvido na conta da, hoje, primeira-dama, o presidente surtou.

"Ô, rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?", disse para a alegria da sua claque.

E não se deu por satisfeito:

"Comprovante de tudo? Pelo amor de Deus. Você empresta, você empresta... Fica quieto, tô respondendo... Você tem nota fiscal desse relógio que está contigo no teu braço? Não tem! Não tem! Você tem nota fiscal do teu sapato? Não tem, porra! Você tem do teu carro, talvez não tenha nota fiscal, mas tem lá o documento. Tudo pro outro lado tem que ter nota fiscal e comprovante? Eu conheço o Queiroz desde 85. Nunca tive problema com ele. Pescava comigo. Andava comigo no Rio de Janeiro. Tinha que ter um segurança comigo. Andava com meu filho. Pô, daí, de repente, se ele fez besteira, responda pelos atos dele".

O presidente precisa entender que a demanda por transparência não é picuinha de jornalistas. Ainda mais em um momento em que o Ministério Público apontou, no pedido de prisão preventiva de Queiroz, que ele foi o responsável por pagamentos em dinheiro vivo de despesas do seu chefe, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro e sua esposa. De mensalidades escolares das filhas a plano de saúde.

O MP-RJ concluiu que o dinheiro "não proveio das fontes lícitas de renda do casal, mas sim dos recursos em espécie desviados da Alerj [Assembleia Legislativa do Rio] entregues pelos 'assessores fantasmas' a Fabrício José Carlos de Queiroz".

O comprovante que a mãe de um repórter teria dado para o pai dele diz respeito à vida privada.

Mas o comprovante do depósito de um cheque na conta da primeira-dama de alguém acusado de operar o desvio de recursos públicos em um esquema que seria chefiado pelo seu primogênito do presidente e senador é, sem dúvida, de interesse público. E pelo fato de (ainda) estarmos em uma democracia, em que governantes são obrigados a obedecer a princípios republicanos, é que a palavra de Bolsonaro não basta.

Diante disso, seria o caso de pedir: "Ô, MP, pergunta para o Queiroz o comprovante que ele deu pro presidente, tá certo?"

Leonardo Sakamoto