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Leonardo Sakamoto

Vácuo de liderança nacional agravou a covid no Nordeste, dizem governadores

Covas abertas, no Cemitério Parque das Flores, localizado no bairro de Tejipió, na Zona Oeste do Recife, para sepultar vítimas da covid-19                               - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Covas abertas, no Cemitério Parque das Flores, localizado no bairro de Tejipió, na Zona Oeste do Recife, para sepultar vítimas da covid-19 Imagem: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/08/2020 05h17

Resumo da notícia

  • Governadores de Estados do Nordeste afirmam que a falta de articulação do presidente da República ajudou a aprofundar o impacto da pandemia.
  • Um dos exemplos disso teria sido a demora do governo em fechar os aeroportos, principais portas de entrada do coronavírus na região.
  • A falta de articulação nacional no combate à covid contribuiu, segundo os ouvidos, com a sua mortalidade e impactou negativamente a economia.

Em meio à pandemia de coronavírus, Jair Bolsonaro (sem partido) intensificou a agenda no Nordeste através de atos que lembram a campanha eleitoral de 2018. Nesta segunda (17), o presidente da República foi à terceira inauguração de obras em menos de dois meses. A reação acalorada de seus apoiadores e fãs contrasta com a posição de governadores da região, que reclamam que ele havia sumido durante a crise, facilitando a "invasão" da covid.

Na avaliação desses governadores, ouvidos pela coluna, o vácuo na articulação nacional para organizar os esforços de combate à crise ajudou a aprofundar o seu impacto e, consequentemente, o número de mortes no Nordeste. 

Um dos exemplos dessa ausência teria sido a paralisia de sua gestão quanto aos aeroportos, portas de entrada do vírus e palcos de manifestações de apoiadores do presidente nas suas últimas visitas. A portaria 152 do governo federal que restringiu a entrada de estrangeiros de todas as nacionalidades por via aérea, é de 27 de março. Contudo, no Brasil, o primeiro caso positivo havia sido registrado em 26 de fevereiro e a primeira morte por covid ocorrida em 16 de março.

"Além da demora do governo federal em proibir voos internacionais, ainda chegou-se ao absurdo de proibir que profissionais de saúde do Estado fizessem barreiras sanitárias na área de embarque e desembarque, que é federal", afirma o governador do Ceará, Camilo Santana (PT). "A Justiça derrubou essa proibição e o governo federal recorreu, sendo mais uma vez derrotado na Justiça, dessa vez no Tribunal Regional Federal."

De acordo com ele, o país sofreu com a falta de uma coordenação nacional desde o início da pandemia, o que prejudicou seu enfrentamento. "Diante da ausência nacional, governadores e prefeitos tomavam medidas seguindo orientações da ciência, como o isolamento social, e o presidente mandava o povo para as ruas, atacava os governadores", diz.

Bolsonaro tem repetido com frequência que o Supremo Tribunal Federal o afastou das decisões sobre o combate ao coronavírus. O STF afirmou, na verdade, que prefeitos e governadores também tinham o direito de participar da elaboração das políticas contra a covid-19.

A dificuldade de implementar medidas de contenção citada por Santana é compartilhada pelo governador Flávio Dino (PC do B), do Maranhão.

"Durante semanas, tentaram impedir a atuação dos governos estaduais nos aeroportos, que são espaços de controle federal. No Maranhão, diante da omissão federal, tivemos que entrar na Justiça para conseguir fazer fiscalizações sanitárias nesses locais", explica.

Para ele, a "irresponsabilidade" do presidente da República atrasou providências que deveriam ter sido tomadas. "O governo federal nada fez para dificultar a chegada do coronavírus ao Brasil. Até por que Jair Bolsonaro (sem partido) acreditava que ele causava apenas uma 'gripezinha'", avalia Dino.

Questionados pela coluna, a Casa Civil da Presidência da República e o Ministério da Justiça e da Segurança Pública não se pronunciaram sobre o fechamento dos aeroportos e a respeito de uma suposta falta de planejamento do governo federal no combate à covid.

De acordo com a última pesquisa Datafolha, a aprovação de Bolsonaro subiu de 27% para 33% e a reprovação caiu de 52% para 35% na região Nordeste - a média nacional é de 37% e 34% respectivamente. O motivo principal apontado é a concessão do auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1200 a famílias com trabalhadores informais, aprovado pelo Congresso Nacional, e que já dura cinco meses.

O Nordeste, desde a eleição, tem sido o principal reduto oposicionista do país e, por isso, alvo da estratégia eleitoral antecipada de Bolsonaro. 

Nordeste sofreu um "ataque aéreo" de covid via aeroportos

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis, coordenador científico do Consórcio Nordeste, explica que os aeroportos internacionais foram a principal forma de invasão do coronavírus no Brasil.

Para além dos grandes nós de conexões, São Paulo e Rio de Janeiro, ele cita o Nordeste como grande vítima desse "ataque aéreo" por conta de seus aeroportos receberem um fluxo muito grande de turistas vindos diretamente do hemisfério Norte.

"O espaço aéreo ficou aberto até o final de março - o que é um absurdo total, porque já se sabia que a pandemia estava explodindo na Europa e nos Estados Unidos. Foi uma decisão absurda, um dos erros crassos de maior significância", analisa. Segundo ele, entraram pelos aeroportos, ao menos, 100 diferentes cepas, variações do vírus, que infectaram o país.

Nicolelis acredita que o combate ao coronavírus é a principal guerra da história do Brasil e deveria ser tratada como tal. A visão é compartilhada pelo governador da Bahia, Rui Costa (PT).

"A pandemia deveria ter sido, desde o início, tratada como uma guerra. Uma guerra para salvar vidas. No entanto, o governo federal subestimou as consequências e a gravidade", afirma.

Costa avalia que é difícil mensurar a relação entre a demora do governo em fechar os aeroportos e o agravamento da pandemia no seu Estado. Mas explica que, desde o início, defendia e esperava uma coordenação do governo federal.

"Se essa coordenação e a unificação de discurso e ações tivessem acontecido, talvez o Brasil não registrasse esse número de óbitos. O país deveria estar unido independentemente das convicções ideológicas e de partidos políticos. É lamentável", desabafa.

Jair Bolsonaro inaugura trecho de obra da transposição do rio São Francisco  - Reprodução - Reprodução
Jair Bolsonaro inaugura trecho de obra da transposição do rio São Francisco
Imagem: Reprodução

Ausência de articulação nacional teve impacto também na economia

Paulo Câmara (PSB), governador de Pernambuco, avaliou à coluna que esse papel de articulação se traduziria na melhora da logística de uma resposta e na organização das quarentenas.

"Para o enfrentamento eficiente da pandemia da covid-19, é necessário que os governos nacionais tenham um papel central. Seja na distribuição de equipamentos, medicamentos e na mobilização de profissionais, seja no comando de medidas de isolamento que ajudaram a salvar vidas. Infelizmente isso não aconteceu no Brasil."

O presidente da República tem defendido que as medidas de isolamento e distanciamento sociais não são eficazes no combate à covid-19, pelo contrário, contribuiriam para o seu agravamento. E, com isso, não aceitou coordenar um processo de fechamento e abertura do país. Sem apresentar provas, Bolsonaro afirmou que seu impacto econômico causaria uma perda de vidas maior que a do próprio coronavírus.

"Não podemos continuar sufocando a economia. Dá para entender que a falta de salário, a falta de emprego mata, e mata mais que próprio vírus? Será que tá difícil? Será que tô errando ao falar isso daí? Eu tenho que ter mais responsabilidade?", afirmou nas redes sociais no dia 16 de julho.

"Eu podia ficar quieto, afinal de contas o Supremo Tribunal Federal disse que quem decide tudo nessa área são Estados e municípios. E ponto final", completou na mesma live.

"Além da postura negacionista, não seguindo a orientação da ciência, o presidente da República se omitiu na implementação de um comando, de uma estratégia unificada, que possibilitasse um enfrentamento com mais assertividade e eficiência nas ações de combate à pandemia", afirma a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT).

Para ela, ao invés disso, Bolsonaro partiu para o enfrentamento "desnecessário e condenável" aos gestores estaduais e municipais. O que teve impacto negativo não só na saúde da população, mas também na economia.

Ações construídas através de diálogos entre trabalhadores, empresários, sociedade civil e os Três Poderes, segundo a governadora, tornam possível adotar medidas defendidas pela ciência, como o distanciamento físico e isolamento social, seguidas de uma retomada gradual e planejada das atividades, salvando vidas e empregos. A ausência dessa articulação, por outro lado, vai estender os danos humanos e econômicos por prazo indeterminado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto