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Leonardo Sakamoto

Os sete pecados capitais de Paulo Guedes, o ex-Posto Ipiranga

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/08/2020 14h27

Bolsonaro já percebeu que não precisa de Paulo Guedes. Considerando que o ministro da Economia não se dobrará, de uma hora para outra, à necessidade de tirar o escorpião do bolso e aumentar os gastos públicos para garantir a reeleição do chefe, ops, para permitir que o país volte a crescer, a questão - portanto - não é se ele vai rodar, mas quando.

Bolsonaro mandou suspender propostas que estavam sendo elaboradas por Guedes, a seu pedido, para manter cativo o público do auxílio emergencial depois que a pandemia passar. Sentiu cheiro de queimado para a sua popularidade na toada que a coisa ia. Como Guedes prefere ver o diabo do que aceitar a revisão do teto dos gastos públicos, pode ser que o sacramento eterno do casamento seja desfeito.

Em meio a tudo isso, sete pecados capitais foram cometidos pelo ministro.

Soberba

Paulo Guedes realmente acreditou naquela ladainha de "Posto Ipiranga", o que só demonstra a arrogância de uma parte da nossa elite. Depois pobre que é ingênuo... Os ultraliberais realmente acharam que Bolsonaro seria o Pinochet certo na hora certa e colocaria a agenda deles em primeiro lugar. Da mesma forma, lavajatistas chegaram à loucura de vender o presidente da "rachadinha" como um lutador contra a corrupção nas eleições de 2018. Sergio Moro, que ajudou a elegê-lo e depois assumiu o Ministério da Justiça, que o diga. Quando seus planos pessoais bateram de frente com os de Bolsonaro, foi largado na beira da estrada. Moro, hoje, olha para Guedes e pensa: eu sou você amanhã.

Inveja

Paulo Guedes nem deu as caras no evento de recauchutagem do Minha Casa, Minha Dívida, transfigurado agora em Casa Verde e Amarela, onde seu, hoje, adversário, Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional, foi o centro das atenções. A defesa intransigente da regra do teto dos gastos do czar da Economia azedou sua relação com a ala pragmática dos ministros civis e militares, que querem recursos para obras. As fotos de um Bolsonaro sorridente prestigiando Marinho deve ter deixado Guedes #xatiado. E a inveja faz a gente cometer loucuras. Por exemplo, no dia 11 de agosto, ele ameaçou o presidente da República. Disse, sem papas na língua, que os conselheiros de Bolsonaro estavam sugerindo ao chefe "pular a cerca" e furar o teto dos gastos. E tratou publicamente do risco de impeachment. Disse ainda que Bolsonaro o apoiava. Bem, se alguém precisa reafirmar que tem apoio de alguém é porque não sabe se tem. Ou como diriam os teólogos Baden Powel e Vinícius de Moraes, "o homem que diz 'sou' não é".

Gula

Sociedades civilizadas estão, neste momento, analisando medidas para sair da crise trazida pelo coronavírus que passam por cima da bíblia do mercado. Ou seja, discutem queimar reservas, imprimir dinheiro e taxar super-ricos (super-rico não é você, que tem que parcelar uma Renegade em 24 vezes, talkey?). Só que, aqui, essa discussão isso é vista como sacrilégio e o teto de gastos públicos tratado como dogma religioso. Paulo Guedes, representante do mundo financeiro, ainda arriscou um discurso pela taxação de dividendos e uma proposta vazia de fim das deduções no imposto de renda de pessoas físicas. Mas não propõe um pacote de taxação de renda, fortuna e herança que, segundo um estudo organizado por entidades de servidores do fisco e por economistas, poderia arrecadar R$ 292 bilhões. Na impossibilidade de tirar mais de quem mais tem, discute-se rever o piso constitucional de gastos em educação e saúde. O problema é que quem depende de serviços públicos de qualidade é quem pouco tem. Incomodar rico guloso? Jamé!

Avareza

Guedes sugere financiar o Renda Brasil, como Bolsonaro deseja rebatizar o Bolsa Família, com recursos do abono salarial e do salário-família. Ou seja, tirar dos pobres com carteira assinada para dar aos pobres da informalidade. O presidente sentiu o cheiro de enxofre da manobra e fez o sinal da cruz, afinal não adianta descobrir um santo para proteger o outro pensando nas eleições. Além disso, a proposta da equipe econômica também pretende acabar com o seguro-defeso, o que vai levar a milhares de pescadores a não terem outra alternativa senão pescarem no momento de reprodução dos peixes. Será a lambança do milagre do desaparecimento dos peixes. Quando questionado sobre isso, Guedes faz chantagem, dizendo que a nova CPMF, resolveria a questão de caixa. O problema é que o retorno do imposto vai fazer com que Bolsonaro seja mais malhado do que Judas em sábado de Aleluia.

Gula em “Os Sete Pecados Capitais e as Quatro Últimas Coisas”, pintura de Hieronymus Bosch (1450-1516)  - Reprodução - Reprodução
Gula em “Os Sete Pecados Capitais e as Quatro Últimas Coisas”, pintura de Hieronymus Bosch (1450-1516)
Imagem: Reprodução

Ira

Já no trâmite da Reforma da Previdência, no ano passado, o ministro Paulo Guedes ia ao Congresso gritar com deputado federal de oposição que discordasse de suas teses. Ele conseguiu brigar até com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com quem divide visões de mundo, durante a pandemia. Agora, resolveu pisar de vez na jaca ao dizer que os senadores cometeram um "crime contra o país" ao votarem pela derrubada do veto de Bolsonaro a um projeto que havia garantido reajuste a servidores públicos que atuaram na linha de frente contra a covid-19, como enfermeiros. O Senado, irritado por ter sido chamado de criminoso pelo ministro da Economia, convocou Guedes para se explicar. Logo no momento em que ele precisa de apoio, e que Bolsonaro quer garantir uma base sólida anti-impeachment no Congresso, vai levar mais um puxão de orelha público.

Luxúria

Esse pecado não tem a ver apenas com os prazeres da carne. Quando nossas paixões mais básicas ficam sem controle, podemos adotar comportamentos que são prejudiciais aos outros, dando uma banana para qualquer fronteira moral. Apesar das divergências, Bolsonaro gosta de Guedes. Porque Guedes é um dos ministros mais bolsonaristas da Esplanada. A diferença entre ele e nomes como Damares Alves, Ernesto Araújo e Ricardo Salles é o verniz lambuzado pelo mercado e por uma parte da mídia, que o colocam como equilibrado. O ministro "equilibrado", contudo, já disse que empregada doméstica viajava demais para a Disneylândia. Alertou, diante do risco de manifestações contra o governo, que ninguém se assustasse com um novo AI-5. Reclamou que rico poupava, mas que pobre gastava tudo o que ganhava (por que será, né?). Diante da insensibilidade de sua língua, fica ainda mais difícil para o naco genuinamente liberal defendê-lo publicamente neste momento.

Preguiça

Paulo Guedes apresentou a primeira parte do seu projeto de Reforma Tributária, em julho, após meses de promessas e adiamentos. Com isso, chega atrasado ao debate que já vem sendo travado através de três propostas que tramitam na Câmara e no Senado desde o ano passado. Quem esperava que, depois de tanto tempo, o ministro apresentaria algo completo, decepcionou-se. Guedes sonha em implementar o sistema de capitalização, em que cada trabalhador é obrigado a fazer sua própria poupança para a aposentadoria. Para tanto, defende aprofundar o regime de contratação por hora, mais precário. A questão já foi defenestrada da Reforma da Previdência pelo Congresso após repúdio popular. Ele não ouviu o recado. Todas as suas propostas, de certa forma, giram em torno dessa ideia: da volta da CPMF (com a qual quer liberar empregadores de pagar INSS) à Carteira de Trabalho Verde e Amarela (com redução das proteções trabalhistas).

Guedes é um homem de uma nota só e não quer se reinventar diante das necessidades políticas do chefe - e da realidade da crise.

Pecadores somos todos, ainda mais em um governo em que a família do presidente é acusada de desrespeitar o mandamento presente em Êxodo 20:15 ("não furtarás", adaptado para a contemporaneidade brasileira por "não farás rachadinhas"). O problema é quando determinados pecadores se tornam incômodos para quem quer pecar mais um pouquinho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto