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MP terá que esclarecer se rachadinha virou caixa 2 de Flávio Bolsonaro

Queiroz (à dir.) é ex-motorista e ex-segurança do hoje senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente - Reprodução/Instagram via BBC
Queiroz (à dir.) é ex-motorista e ex-segurança do hoje senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente Imagem: Reprodução/Instagram via BBC
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

29/09/2020 10h33

O repasse de R$ 27 mil de salários e auxílio-alimentação de duas assessoras do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro ao advogado que prestou serviços à sua campanha eleitoral em 2018 joga o escândalo do desvio de recursos públicos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a outro patamar.

Isso indica que "rachadinha" - de natureza ilícita e, portanto, não contabilizada formalmente - pode ter sido usada para ajudar sua candidatura ao Senado. Ou seja, um caixa 2.

Em outras palavras, o Ministério Público precisa esclarecer se o primogênito do presidente da República criou um esquema para desviar dinheiro público da Alerj a fim de bancar sua eleição ao Congresso Nacional usando funcionárias-laranja que entregavam parte de seus rendimentos.

A informação veio a público hoje, com reportagem de Gabriela Sá Pessoa, Amanda Rossi, Igor Mello e Flávio Costa, do núcleo investigativo do UOL Notícias, lembrando que não era só o ex-assessor Fabrício Queiroz que realizava a transferência de recursos públicos.

E que além de chocolates, imóveis, mensalidades escolares e de plano de saúde, rachadinha também pode se transformar em trampolim para cargo público.

De acordo com a quebra de sigilo das servidoras públicas à qual a reportagem teve acesso, foram 22 repasses realizados todos os meses entre junho e dezembro de 2018, período que abrangeu as eleições, ao advogado Luis Gustavo Botto Maia - responsável pela parte jurídica da candidatura de Flávio Bolsonaro (então no PSL e, hoje, no Republicanos) ao Senado.

Botto Maia representou contas dezenas de candidatos do PSL, sendo a maioria mulheres. E recebeu pagamentos de dinheiro público do Fundo Eleitoral.

Vale lembrar que, em depoimento por escrito ao MP-RJ, em fevereiro do ano passado, Fabrício Queiroz já tinha citado a preocupação eleitoral, ainda que em meio a uma justificativa cuja credibilidade não parava em pé. Confirmando que recolhia parte dos salários dos funcionários do chefe, alegou que o destino era remunerar, de maneira informal, outros "assessores da base eleitoral". A isso, deu o nome de "desconcentração de remuneração". Ou seja, atestou que fazia algo ilegal para afastar denúncias de algo ainda mais ilegal.

No caso revelado hoje, as transferências dos salários das servidoras para o advogado que prestou serviços eleitorais a Flávio não passaram pela conta de Queiroz. Evidência de que o esquema era ainda maior e mais complexo. 

Os envolvidos foram procurados pelo UOL, mas não se manifestaram. Ou seja, a pergunta sobre os recursos vai entrar na mesma fila para explicações em que estão os R$ 89 mil em depósitos que a primeira-dama Michelle Bolsonaro recebeu de Fabrício Queiroz e de sua esposa Márcia de Aguiar.

A única resposta a essa pergunta veio do presidente da República, que ameaçou o repórter do jornal O Globo com uma porrada na sua boca.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL