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Leonardo Sakamoto

E se a Prefeitura de SP endurecer a quarentena logo após o segundo turno?

16.11.2020 - Guilherme Boulos (PSOL) e Bruno Covas (PSDB) antes do debate promovido pela CNN Brasil para a Prefeitura de São Paulo - Kelly Queiroz/CNN Brasil
16.11.2020 - Guilherme Boulos (PSOL) e Bruno Covas (PSDB) antes do debate promovido pela CNN Brasil para a Prefeitura de São Paulo Imagem: Kelly Queiroz/CNN Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/11/2020 20h37

Não é bom que estejamos vivendo o segundo turno de uma eleição à Prefeitura de São Paulo durante o aumento na ocupação de UTIs de hospitais particulares e públicos por pacientes com covid-19. Pois, neste momento, a administração municipal, que pode endurecer ou afrouxar a quarentena, tenta a reeleição. O que abre margem para o questionamento sobre uma possível inação.

E o governo do Estado, que também poderia interferir, é controlado pelo padrinho político do prefeito. E, na Presidência da República, temos alguém que chama as pessoas que temem a morte por covid de "maricas". A pesquisa Datafolha apontou, nesta quinta (19), que Bruno Covas (PSDB) tem 48% dos votos totais e Guilherme Boulos (PSOL), 35%.

Em coletiva à imprensa, Covas afirmou que há "uma variação positiva em relação à taxa de ocupação dos leitos de UTI covid", mas que estamos em estabilidade quanto ao número de casos e de óbitos em São Paulo. Para ele, isso era previsto e não há a necessidade de adotar um lockdown ou retroceder na flexibilização da quarentena.

Na segunda (16), em entrevista ao UOL, ele já havia dito que "não há nenhum indício nos dados públicos de qualquer segunda onda" de contaminação e que essa hipótese "é mais uma notícia produzida às vésperas das eleições para deixar as pessoas com medo, como se aqui a gente tivesse qualquer prazer particular em relação à quarentena". Também afirmou que São Paulo recebe pacientes de outros municípios.

A população está esgotada da pandemia, de medidas de distanciamento e, principalmente, de isolamento social. E, com o arrefecimento no número de mortes, grande parte dela acabou voltando às ruas para atividades não essenciais. Outras fazem parecer que todos já foram vacinados.

Bares lotados vomitando gente para as ruas, portas de estádio de futebol parecendo formigueiros humanos, aglomerações em ruas de compras como se não houvesse amanhã. Cenas que trariam orgulho ao negacionismo do presidente.

Nesse contexto, retroceder no processo de abertura da quarentena significaria perder votos de uma parte da população. Mas administrar uma cidade é tomar decisões difíceis que transcendem os interesses políticos.

O prefeito garante que está se baseando suas decisões em números e em protocolos sanitários. Ao mesmo tempo, seus críticos dizem que ele está deliberadamente colocando em risco a saúde e a vida da população para evitar baixar medidas mais duras antes do segundo turno, no dia 29 de novembro.

É bom que o prefeito saiba o que está fazendo. Porque, se vier uma onda grande de mortes por covid, que poderia ter sido mitigada por ações de controle por parte do poder público, o morticínio terá nome e sobrenome.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL