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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro vê mortos da covid como peões descartáveis no xadrez da reeleição

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/03/2021 21h54

Enquanto o país registra 1.726 mortes por covid-19 em 24 horas, um novo recorde que, infelizmente, deve durar pouco, Bolsonaro continua empurrando a população para escolher entre proteger vidas ou salvar empregos, quando as duas coisas deveriam ser foco neste momento. E aposta que a maioria está tão anestesiada pela crise econômica que não vai se preocupar com a pilha de corpos.

Ele acredita que a melhor forma de passarmos pela pandemia é todo mundo ir para a rua e expor-se ao coronavírus para adquirir imunidade de rebanho. E os mortos e feridos que deixaríamos com essa tática suicida? Como ele mesmo disse, todo mundo morre um dia. Traduzindo, dane-se.

Em sua avaliação, 250, 300, 400 mil mortos vão impactar menos sua popularidade do que uma economia em dificuldade. Sabemos que empregos não serão gerados em quantidade enquanto as pessoas continuarem morrendo em escala industrial. Mas o presidente, que não ajuda na articulação para salvar vidas, quer convencer que o melhor é fazer de conta que o corona não existe e ir para o trabalho.

Na região Sul do país, isso levou frigoríficos a se tornarem os principais centros dispersores de coronavírus. E, portanto, de morte. Bolsonaro vê os trabalhadores pobres como peões sacrificáveis no xadrez de sua reeleição.

Em uma sociedade cansada de quarentena, ele vai conseguindo se impor. Por opção, entre quem poderia respeitar recomendações sanitárias, mas tem déficit de empatia. E por falta de opção, entre os que precisam sobreviver e são obrigados a usar as latas de sardinha do transporte público.

Ainda como parte desse cálculo, Bolsonaro acredita que os recordes diários de óbitos por covid, como o desta terça (2), chamam menos atenção que o aumento no preço de combustíveis. Deve ir, nesta quarta (3), à TV para se elogiar pelo corte de impostos do diesel. E agindo como Inimigo Número 1 da República, aproveitar para atacar quarentenas e exigir que todos deem sua cota de sacrifício. Por ele.

O escárnio é tão grande que, em meio a tudo isso, seu filho mais velho, um senador, comprou uma mansão de R$ 6 milhões, em Brasília, enquanto ele está sendo acusado de desviar R$ 6,1 milhões da Assembleia Legislativa do Rio enquanto deputado.

O presidente sabia também que os trabalhadores precisariam do auxílio emergencial na hora em que a pandemia atingisse estas semanas sombrias. Porém, não se empenhou na prorrogação do benefício. Deixou o caldo entornar. Com isso, tivemos fome - que, agora, está sendo usada por ele para justificar os ataques que faz às quarentenas. Cinicamente, Bolsonaro diz que o isolamento mata empregos, quando foi ele quem espancou a economia ao minar ações sanitárias, prolongando a pandemia.

Dentro de algumas semanas, ele vai se vender como Pai dos Pobres, como fez no ano passado, com a liberação de novas parcelas do auxílio emergencial. Diante do mercado, deve jogar a culpa pelo auxílio na pressão da sociedade e do Congresso Nacional. Mas para o pessoal que ganha até três salários mínimos, vai capitalizar eleitoralmente cada real pago.

Bolsonaro tirou o dele da reta no ano passado, quando passou a vender a narrativa mentirosa de que o Supremo Tribunal Federal tinha deixado a cargo apenas de governadores e prefeitos a gestão da crise. Foi além e, nesta semana, mentiu novamente, dizendo que repassou mais recursos aos Estados para o combate à covid-19 que, de fato, repassou.

Jair tem plena consciência que quarentenas e bloqueios reduzem a quantidade de pessoas infectadas, internadas e mortas. Mas como é impossível zerar a contagem de corpos, ainda mais depois do processo de empoderamento de negacionistas que ele mesmo levou a cabo, vai usar isso para dizer que elas floparam e só trazem desemprego.

Chegamos ao patamar de 1.726 mortes em 24 horas graças ao fato de Bolsonaro ter uma política plural para a pandemia. Nela, tem de tudo: crença amoral, estratégia eleitoral, incompetência estrutural e maldade surreal.

O problema é que esse xadrez é tocado pelas regras que ele cria e muda o tempo todo. Como no Complexo do Pombo Enxadrista. Tratar do combate racional à covid-19 com ele é como jogar xadrez com um pombo: ele faz porcaria no tabuleiro, derruba as peças e sai voando cantando vitória para o seu bando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL