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Leonardo Sakamoto

Com transporte lotado, doar máscara N95/PFF2 a trabalhadores salvaria vidas

Mesmo durante fase vermelha, transporte público sofre com superlotação -  Arthur Souza/Photo Press/Folhapress
Mesmo durante fase vermelha, transporte público sofre com superlotação Imagem: Arthur Souza/Photo Press/Folhapress
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/03/2021 11h44Atualizada em 20/03/2021 18h06

O ideal, neste momento da pandemia, seria que o transporte coletivo fosse usado apenas por trabalhadores de atividades estritamente essenciais e que o restante da sociedade estivesse em lockdown, segundo especialistas ouvidos pela coluna.

Mas enquanto isso não acontece, a distribuição gratuita de máscaras do tipo N95/PFF2, mais capazes de proteger contra o coronavírus, para trabalhadores que realmente precisam se deslocar por ônibus e trens ajudaria a reduzir a infecção.

Mesmo com a escalada de mortes, o transporte coletivo continua produzindo cenas de aglomerações. O Brasil registrou, nesta sexta (19), 290.525 mortos, com mais de 15 mil óbitos em sete dias.

Esse tipo de máscara tem uma maior capacidade de filtragem e se ajusta melhor ao rosto do que as máscaras de tecido e as cirúrgicas. Mais caras, podem ser usadas várias vezes antes de descartadas. Podem custar de R$ 7 a R$ 50, dependendo do modelo e da subida de preço pela alta demanda.

A doação do equipamento à maior quantidade possível de usuários é uma das formas que a iniciativa privada e a sociedade civil poderiam ajudar no combate ao coronavírus.

Comprar e distribuir N95/PFF2 ajudaria a reduzir o contágio

"A N95 diminui muito a chance de se infectar. Ao oferecer um EPI [Equipamento de Proteção Individual] melhor ao profissional quando ele está numa zona de risco, seja dentro do hospital ou no transporte publico, isso vai causar impacto no risco de ele ficar doente", afirma André Nathan, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês e professor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Ele alerta, contudo, que ela é apenas um dos elementos de uma equação de proteção. Pois não adianta o trabalhador usar no transporte e, depois, ignorá-la em outros momentos da vida cotidiana - como ir ao mercado ou à farmácia.

Ao mesmo tempo, seu uso deveria vir combinado com outras ações, como o escalonamento de horários no transporte público para trabalhadores essenciais da indústria, do comércio e dos serviços, por exemplo. Ou mesmo a ampliação da frota - ao contrário do que alguns imaginam, tentativas de redução de veículos em circulação não reduzem à demanda por ônibus e trens, apenas aumenta as aglomerações.

A diminuição de usuários de transporte ocorreria com duas ações: lockdown junto com o pagamento de auxílio emergencial em valor suficiente para as necessidades básicas. O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), tem agido contra a primeira e atrasou a segunda.

Iniciativa privada poderia garantir distribuição a trabalhadores essenciais

Como esse tipo de máscara está em falta inclusive entre profissionais de saúde que atuam em unidades públicas de saúde, o ideal é que a iniciativa privada ajude a viabilizar sua aquisição para seus empregados e para outros trabalhadores que não podem pagar por elas. Assim, o Estado pode se concentrar em garantir aos servidores públicos.

A doutora em microbiologia Natália Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência, defendeu à coluna que a iniciativa privada poderia comprar e doar máscaras N95/PFF2 "em vez de ficar falando em compras vacinas".

Há um grupo de empresários que deseja comprar doses para imunizar apenas seus empregados. A lei 14.125/2021 permitiu ao setor privado comprar imunizantes desde que doe 100% das doses ao SUS, se as compras ocorrerem até o final da vacinação dos grupos prioritários, e 50%, depois disso.

Contudo, parte deles, como Luciano Hang, dono da rede Havan, e Carlos Wizard, da Sforza, defendem publicamente que as compras não tenham a contrapartida de doação para o SUS.

Pasternak aponta que Programa Nacional de Imunizações, um dos melhores do mundo, seria capaz de vacinar mais rápido que qualquer outro país, se tivesse as doses à disposição. Enquanto isso, há outras ações que, neste momento, o setor privado poderia ser mais útil. Como garantir formas para que lockdowns sejam efetivos e doando máscaras N95/PFF2.

Há experiências ocorrendo em algumas partes do país. As primeiras 10 mil de um total de 200 mil máscaras N95/PFF2 começaram a ser distribuídas, na manhã desta sexta (19), aos passageiros do transporte coletivo na região da Grande Goiânia. A ação é uma iniciativa do governo Ronaldo Caiado (DEM) em parceira com a Organização das Voluntárias de Goiás.

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis, professor catedrático da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, lembra que "vivemos uma guerra de extermínio, uma guerra biológica fora de controle" e defende o lockdown como única alternativa para baixar o número de mortes.

Segundo ele, "os insumos diários para manter a guerra viva, nossa defesa do último bastião de soberania nacional, estão desaparecendo".

Enquadra-se aí medicamentos, como aqueles necessários para a intubação de pacientes, mas também equipamentos de proteção para quem está na linha de frente, nos mantendo vivos em hospitais ou garantindo que possamos comprar alimentos.

Empregadores em setores essenciais garantiriam que sua força de trabalho não contraísse coronavírus, o que pode configurar acidente de trabalho, inclusive, e distribuir a seus empregados. E, se possível, ir além e entregar àquele grupo que tem saído de casa em busca de sobrevivência devido à demora na liberação do auxílio emergencial.