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Leonardo Sakamoto

Butanvac é boa notícia, mas estipular prazos criou problema aos cientistas

João Doria mostra caixa da Butanvac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan contra a covid-19 - Reprodução
João Doria mostra caixa da Butanvac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan contra a covid-19 Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/03/2021 12h16Atualizada em 26/03/2021 15h52

"Quem estipula data para a entrega de uma vacina ou de um medicamento é o político, não o cientista. Cientista sabe que não podemos colocar uma data para o fim da fase de testes."

A avaliação foi feita ao UOL por Natália Pasternak, doutora em microbiologia e fundadora do Instituto Questão de Ciência, após anúncio do governador João Doria (PSDB), nesta sexta (26), que São Paulo espera distribuir a Butanvac, vacina 100% nacional, a partir de julho.

O Instituto Butantan, que desenvolveu o imunizante, vai pedir autorização à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para realizar as fases 1 e 2 de testes (que vão verificar sua segurança e capacidade de gerar imunização) e 3 (quando saberemos da eficácia) em seres humanos.

"Fizemos todos os enfrentamentos desde abril do ano passado para colocar a vacina no braço dos brasileiros. E hoje temos a oportunidade de apresentar uma nova vacina. Esperamos poder oferecê-la a partir de julho. A Butanvac é uma resposta aos negacionistas", disse Doria em coletiva desta sexta.

Mas a distribuição em escala já no mês de julho tem sido considerada improvável por pesquisadores.

"É uma vacina legal, uma tecnologia muito promissora e bem sacada. A notícia é tão boa que não precisava ter se comprometido com datas de distribuição. Tem muita confusão que pode acontecer no meio do caminho", explica Pasternak.

O impacto de uma população frustrada com uma não entrega na data anunciada pode recair não apenas sobre o governo, mas no próprio Butantan. O que impactaria a credibilidade do instituto como um todo.

Ela cita, como exemplo, o que aconteceu no final do ano passando, quando o governo paulista adiou sucessivas vezes o anúncio sobre a taxa de eficácia da Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida pelo Butantan.

"Isso reduziu de forma desnecessária a credibilidade da vacina que já estava abalada por conta da propaganda negativa por parte do presidente da República", avalia.

Além de vacinas contra covid-19, também dengue, zika e chikungunya

De acordo com Natália Pasternak, o Butantan domina a tecnologia usada no desenvolvimento da vacina e tem todos os elementos para fazer uma boa vacina, o que significaria autonomia não só contra a covid-19, mas também para a produção de outros imunizantes.

"É um movimento de resgate da importância do Instituto Butantan como criador de vacinas e pode abrir portas para avanços contra a dengue, o Zika, o Chikungunya, doenças brasileiras", avalia.

Também afirma que, apesar das boas notícias, seria importante o instituto compartilhar as informações sobre a fase pré-clínica com a comunidade científica. E fornecer mais informações sobre as estimativas de como e onde serão realizadas as fases 1, 2 e 3 de testes.

A última etapa pode durar mais de três meses, considerando desde o recrutamento de milhares de voluntários até a análise cuidadosa dos resultados. Isso se tudo der certo, sem a interrupção por efeitos adversos, como aconteceu com outras vacinas.

Testes também envolverão o Vietnã e a Tailândia, onde a fase 1 já começou. Para ocorrerem no Brasil, tanto a Anvisa quanto o Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) precisam dar sua aprovação.

Com outros imunizantes já sendo aplicados na população, o teste de eficácia não deve ocorrer em comparação com um placebo, como foi com as vacinas de Oxford/AstraZeneca, Coronavac, entre outros, mas com um "teste de não inferioridade". Nele, o desenvolvedor precisa demonstrar que o produto não é inferior aos que já estão sendo usados no país.