PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bajular Bolsonaro por vaga no STF funciona ou só serve para espalhar covid?

Raul Spinassé/Folhapress
Imagem: Raul Spinassé/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

08/04/2021 11h35

Dois pretendentes à vaga que será aberta com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio Mello, no STF, aproveitaram o julgamento sobre a constitucionalidade dos decretos que fecharam templos e igrejas em meio à escalada da covid-19 para provar o seu valor ao presidente Jair Bolsonaro nesta quarta (7).

Não se importando com o constrangimento de transformar a tribuna do Supremo Tribunal Federal em púlpito de igreja, o advogado-geral da União, André Mendonça, e o procurador-geral da República, Augusto Aras, fizeram suas sustentações com a bíblia embaixo do braço.

Mello se aposenta no dia 5 de julho e o presidente já apontou o desejo em indicar alguém que satisfaça sua base religiosa conservadora, que vem sendo uma das responsáveis por evitar que sua popularidade, em queda, desabe.

"Não há cristianismo sem vida comunitária, não há cristianismo sem a casa de Deus. É por isso que os verdadeiros cristãos não estão dispostos, jamais, a matar por sua fé, mas estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e culto. Que Deus nos abençoe e tenha piedade de nós", disse André Mendonça.

Mendonça, que é presbiteriano, ainda foi sommelier de fé ao usar a expressão "verdadeiros cristãos" - séculos atrás, a Inquisição abraçou a ideia e, bem, sabemos o que aconteceu. E a despeito de ele afirmar que as pessoas estão dispostas a morrer por sua fé, o problema é que, indo a essas aglomerações, fiéis se tornam vetores de transmissão. E acabam, sim, matando por sua fé.

"A ciência salva vidas, a fé também. Fé e razão que estão em lados opostos no combate à pandemia nestes autos, caminham lado a lado, em defesa da vida e da dignidade humana", afirmou o procurador-geral da República. "Não há oposição entre fé e razão. Onde a ciência não explica, a fé traz a justificativa que lhe é inerente. Inversamente, onde a ciência explica a fé também traz o seu contributo."

O católico Augusto Aras trouxe a um debate constitucional o argumento de que a fé faz milagres e que o Estado é laico, mas as pessoas não. A liberdade religiosa é um direito humano, tal como a saúde e a própria existência. Não são excludentes, mas possuem limites que precisam de acomodação caso a caso. E um recorde de 4.211 mortes registradas em 24 horas por covid-19 é uma situação que leva à reacomodação desses limites. Tratar o culto presencial como direito absoluto é retórica sem lastro.

A questão é como Bolsonaro, o imprevisível, vai se comportar diante disso. Ele compartilhou a pregação de Mendonça, nesta quarta, nas redes sociais. Isso pode significa muito. Ou nada.

A indicação de Kassio Nunes Marques à vaga aberta com a aposentadoria do ministro Celso de Mello deixou a ver navios pretendentes no Judiciário, Ministério Público e Poder Executivo. Gente que se esforçou muito em agradá-lo na busca pelo Olimpo, paparicando-o e à sua base à custa do interesse público.

Deve ter sido frustrante para outros candidatos - que tentaram cair nas graças do presidente da República através de ações e declarações que protegiam os interesses dele, de sua família e de seus amigos - ver alguém que corria por fora levando a melhor.

Como Nunes Marques tem abraçado as posições do padrinho em votações de interesse dele, talvez o mais importante não seja a bajulação pregressa, mas a capacidade do postulante de convencer que não se tornará independente num futuro próximo.

Bolsonaro pode optar por uma saída de "Quadrilha", indicando um novo J.Pinto Fernandes, que não era parte da história, tal como fez Carlos Drummond de Andrade.

Como acredita que será reeleito em 2022, talvez esteja pensando: para que indicar um desses que me servem tão bem na Justiça, no Ministério Público e no Poder Executivo logo agora? Deixa que se esforcem mais um pouco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL