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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dez vezes em que Paulo Guedes provou ser o mais bolsonarista dos ministros

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/04/2021 21h25

Paulo Guedes cansou de dar provas de que é o mais bolsonarista dos ministros de Jair Messias, com rompantes de demofobia, dificuldade de sentir empatia e ausência de autocontrole. Mas uma parte dos formadores de opinião ainda insiste em passar pano, afirmando que ele é "técnico".

De tempos em tempos, Guedes parece se revoltar com isso. Quer mostrar ao mundo que é bolsonarista sim.

Para ajudá-lo, a coluna reuniu dez vezes em que causou orgulho ao chefe. Confira:

1) Criticou o aumento da expectativa de vida dos brasileiros

O ministro da Economia reclamou, nesta terça (27), em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que o aumento da expectativa de vida dos brasileiros dificulta que o governo feche as contas. "Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130. Não há capacidade de investimento para que o estado consiga acompanhar."

2) Acusou a China, nossa fornecedora de vacinas

No mesmo encontro, afirmou que o "chinês inventou o vírus" da covid-19, sem apresentar provas, ecoando as teorias conspiratórias da extrema direita, de que o coronavírus nasceu num laboratório do gigante asiático. Também reclamou que as vacinas desse país são piores que as dos Estados Unidos. Vale lembrar que, semanas atrás, o Brasil estava implorando para a China liberar mais insumos para fabricarmos imunizantes. Depois, tentou se justificar, dizendo que até tomou a CoronaVac - versão adaptada do "até tenho amigos"...

3) Afirmou que bastariam R$ 5 bilhões para acabar com o coronavírus

"Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Porque já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra." A declaração foi dada por ele, em entrevista à revista Veja publicada em 13 de março de 2020. De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, em 2020, a maior parte com o pagamento do auxílio emergencial (R$ 293,11 bilhões).

4) Reclamou de trabalhadoras empregadas domésticas indo à Disney

"O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada." Durante um evento em Brasília, no dia 12 de fevereiro de 2020, o ministro cometeu um de seus maiores sincericídios. Percebendo o absurdo transcrito acima, quis corrigir, afirmando que (antes que o acusassem daquilo que ele realmente disse), na sua opinião, "todo mundo tem que ir para a Disneylândia, conhecer um dia, mas não três, quatro vezes por ano". E sugeriu substituir por atrações nacionais - para a alegria de seu então colega de Esplanada e dono de laranjal, Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo.

5) Chamou servidores públicos de parasitas

Alguns dias antes, Paulo Guedes já havia causado celeuma ao chamar os funcionários públicos de "parasitas" do orçamento nacional, em um evento no Rio de Janeiro. "O hospedeiro [governo] está morrendo, o cara virou um parasita", afirmou, criticando a política de aumentos salariais de servidores no dia 7 de fevereiro. Generalizou o trabalho de servidores públicos, que cuidam da nossa saúde, de nossa educação, de nossa segurança. Diante da repercussão extremamente negativa, disse que sua fala foi descontextualizada (desculpa padrão...) e que reconhecia a qualidade do serviço desses trabalhadores, citando até a família e amigos.

6) Insinuou um novo AI-5 em caso de protestos de rua

"Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5." O ministro da Economia, de tempos em tempos, nos lembra o quanto é fã do modelo chileno, com uma economia neoliberal erguida sobre as fundações do governo autoritário, assassino, estuprador e torturador do general Augusto Pinochet. A declaração foi dada, no dia 25 de novembro de 2019, em uma coletiva de imprensa em Washington DC. De forma irresponsável, chamou possíveis manifestações de rua contra as reformas de "quebradeira", fazendo uma analogia ao que estava acontecendo no Chile. Vale lembrar que o país sul-americano estava em convulsão por conta da falta de serviços públicos de qualidade, das baixas aposentadorias mas, principalmente, da violência com a qual o governo Sebastián Piñera reprimiu as manifestações.

7) Criticou pobres por não pouparem (por que será, né?)

Ao defender o regime de capitalização (no qual cada um faz uma poupança para a sua própria aposentadoria), em detrimento ao de repartição (em que os trabalhadores da ativa contribuem para as pensões dos aposentados), Guedes lamentou que o Congresso Nacional tenha vetado a previsão de mudança de um para outro. E mergulhou em insensibilidade e preconceito. "Com ele, você colocaria o Brasil para crescer, aumentaria taxa de poupança, educaria financeiramente famílias mais pobres. Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo", afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo, em novembro de 2019.

8) Afirmou que são os pobres que destroem o meio ambiente

Diante do frio no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Guedes afirmou que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Disse que [os pobres] "destroem porque estão com fome", em janeiro de 2019. Provou que vive numa realidade paralela, onde a Vale não causou duas catástrofes de lama tóxica em Brumadinho e Mariana, destruindo vidas pelo caminho. Onde não há indígenas (que detêm os maiores índices de preservação de vegetação nativa em seus territórios) sendo expulsos de suas terras em nome da expansão agropecuária, como no Mato Grosso do Sul. Onde o comportamento avarento de indústrias não impediu a redução do enxofre no combustível usado por veículos, o que causa câncer e morte nas grandes cidades.

9) Xingou a esposa do presidente da França

"O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado ", disse Paulo Guedes, no evento "A Nova Economia do Brasil", no dia 5 de setembro de 2019. O que Brigitte Macron tem a ver com a Nova Economia do Brasil não sabemos, mas o machismo e a grosseria animou os seguidores fiéis do presidente, que estavam irritados com as críticas do presidente francês a Bolsonaro.

10) Bolsonaro tem que ganhar muito mais do que recebe hoje

E, claro, a relação não poderia terminar sem uma puxadinha de saco no patrão. Enquanto o cidadão comum estava fazendo milagre para comprar o arroz e o feijão, que estavam sumidos ou pela hora da morte, o ministro da Economia defendeu que o seu chefe, o presidente da República, deveria receber "muito mais do que recebe". Bolsonaro tem um salário de quase R$ 31 mil mensais, além de palácio, comida, roupa lavada, emas para brincar, helicóptero para dar carona no casamento do filho e um cartão corporativo que não discrimina os gastos ao público. "A Presidência da República, o Supremo, evidente que eles têm que receber muito mais do que recebem hoje. Pela responsabilidade do cargo, pelo peso das atribuições, pelo mérito em si para poder chegar a uma posição dessas", disse Guedes em setembro de 2020.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL