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Leonardo Sakamoto

Sabotagem do governo Bolsonaro atrasou vacinação de mais de 2 milhões

13.mai.2021 - CEO da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, em depoimento à CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
13.mai.2021 - CEO da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, em depoimento à CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/05/2021 16h59

Se o governo Bolsonaro não tivesse ignorado a terceira proposta de venda de vacinas pela Pfizer, de 26 agosto de 2020, cerca de 1,5 milhão de doses teriam sido entregues em dezembro e mais 3 milhões até março deste ano. Com 4,5 milhões de doses, mais de 2,2 milhões de pessoas teriam sido vacinadas com as duas doses e, portanto, dezenas de milhares de enterros evitados.

As informações foram prestadas, nesta quinta (13), à CPI da Pandemia por Carlos Murillo, gerente-geral da farmacêutica para a América Latina.

A oferta já era conhecida, tendo sido confirmada pelo então chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, à revista Veja. Nesta quarta, ele tentou enrolar a comissão para preservar o chefe, mas acabou entregando uma prova, a carta com uma das propostas recebidas e ignoradas.

Idosos e profissionais de saúde, prioridades no calendário do Programa Nacional de Imunizações, teriam recebido antes a vacina, adiantando todo o processo. Sem outras opções, o país acabou se tornando dependente da CoronaVac, também duramente atacada pelo presidente por ter sido negociada por seu adversário, o governador João Doria.

Uma das consequências de vivermos sob um governo que menospreza a vida humana submetendo-a às necessidades políticas do seu líder é que vamos nos tornando paulatinamente insensíveis. É tanta paulada diária no bom senso que acabamos banalizando a violência e esquecendo que certas coisas precisam causar indignação.

Por isso, é importante repetir: as decisões conscientes tomadas por Jair Bolsonaro e equipe, fazendo pouco caso da proposta da Pfizer, levaram muitos brasileiros à morte. Isso não é força de expressão, estamos falando de mortes completamente evitáveis mediante vacinação em um processo macabro comprovado por extensa documentação.

Carlos Murillo confirmou que as negociações do total de 70 milhões de doses ficaram paradas por dois meses. Ele atestou que tem protocolo de entrega da proposta ao governo e ao próprio Bolsonaro. Pressionado pela segunda onda de mortes, o presidente veio a assinar um acordo com a Pfizer em março, garantindo o fornecimento de doses a partir deste trimestre.

Antes tarde do que nunca? Sim, mas não para os mortos e seus familiares. E para quem perdeu negócios pela extensão desnecessária da pandemia devido à sabotagem na compra de vacinas.

A tropa de choque do governo tenta fazer o que pode, afirmando que não havia lei específica para permitir a aquisição, o que é bobagem. Se com a maioria folgada que tem no Congresso Nacional, Bolsonaro consegue até atropelar a legislação do licenciamento ambiental, imagine para uma vacina que salva vidas e teria apoio da oposição?

Enquanto o depoimento acontecia, o presidente da República foi para Alagoas, reinaugurar obras que já haviam sido inauguradas. O ato de pré-campanha eleitoral contou com xingamento a Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI e pai do governador Renan Filho, e ataque ao ex-presidente Lula - que apareceu ganhando de Bolsonaro em pesquisa Datafolha, nesta quarta (12), por 55% a 32% no segundo turno.

Bolsonaro, quando fragilizado, ataca. O que ocorreu, nesta quinta, foram atos de guerra para excitar seguidores fiéis e servir de cortina de fumaça diante de uma imagem desgastada. O Datafolha apontou que sua aprovação passou de 30%, em março, para 24%.

Mais do que indicar culpados, a CPI da Pandemia pode reduzir a sabotagem do governo federal. Até porque o principal responsável, o presidente da República, já é bem conhecido e parece se orgulhar do feito.

Por exemplo, a China é o principal fornecedor de matéria-prima para a fabricação de vacinas no Brasil. Tanto o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) para a CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac e produzida pelo Instituto Butantan, quanto o da AstraZeneca, finalizada pela Bio-Manguinhos/Fiocruz dependem do gigante asiático.

Porém, o Butantan está sem IFA. Para produzir mais CoronaVac, será necessário que a China libere os cerca de 10 mil litros de IFA que estão prontos para envio, o que representaria 18 milhões de novas doses. O diretor do instituto, Dimas Covas, afirma que a culpa pelo atraso é das declarações de Bolsonaro contra a China. No último dia 5, o presidente insinuou que os chineses criaram o vírus e se beneficiaram economicamente dele.

Desde o início da pandemia, Jair Bolsonaro decidiu estimular o contágio dos brasileiros com a intenção de que todos alcançassem imunidade de rebanho e o vírus parasse de circular. Sua aposta foi de que, assim, a economia retornaria mais cedo, o que não prejudicaria a sua reeleição. O problema é que o efeito colateral dessa estratégia são centenas de milhares de cadáveres.

Como ele acredita que 0,2% da população morta é menos impactante para seus planos políticos que 14,4% dos brasileiros desempregados, então segue a aposta mórbida. Aposta que pode perder se continuar pagando um auxílio emergencial de fome (mínimo de R$ 150, máximo de R$ 375 mensais por família). Chamado de "genocida" por seus críticos, ele está ganhando alcunhas como "sovina", "insensível" e "incompetente" por um grupo bem maior.