PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Com morte de Marco Maciel, acaba a era de vices discretos da Nova República

ANDERSON RIEDEL/PR
Imagem: ANDERSON RIEDEL/PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

12/06/2021 10h28

Com a morte de Marco Maciel, aos 80 anos, na madrugada deste sábado (12), após sete anos de convivência com o mal de Alzheimer, vai embora o último vice-presidente da República com atuação discreta no cargo desde a redemocratização. Conservador e tendo feito parte da base de sustentação da ditadura, ele atuou como articulador político no governo Fernando Henrique Cardoso (1995 e 2002).

José Alencar, que faleceu em março de 2011, foi mais que um fiador da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva junto aos empresários - o presidente e o vice se admiravam mutuamente. Alencar incorporava, por vezes, a função de porta-voz das críticas do próprio Lula aos juros e à política monetária. Ajudou a dar estabilidade à Presidência.

Apesar de demonstrar desde a campanha eleitoral sua divergência quanto às privatizações e outras escolhas de Fernando Collor de Mello, e de não ser consultado pelo governo, Itamar Franco - morto em julho de 2011 - foi discreto durante o processo de impeachment.

O mesmo não pode ser dito de Michel Temer, que se ofereceu como o único capaz de tirar o país da crise e aplicar as reformar liberalizantes desejadas pelo poder econômico, enquanto prometia salvar políticos que eram alvos da Lava Jato e aprofundar o balcão de negócios no Congresso Nacional. Ele escreveu cartinha pública de insatisfação e conspirou politicamente a céu aberto. No momento da votação do impeachment de Dilma Rousseff, torceu como em uma final de Copa do Mundo.

Nem do general Hamilton Mourão. Jair Bolsonaro não raro trata o seu vice como inimigo, devido à paranoia de que ele quer roubar o seu lugar. Pouco se falam e o presidente já rebateu declarações do general em público. Mourão, por outro lado, não se faz de rogado e tece comentários críticos a políticas adotadas pelo governo. Em entrevista ao UOL, em maio deste ano, reconheceu que não deve estar na chapa presidencial do ano que vem. "Tudo indica que ele não me quer como vice", afirma.

Isso será uma novidade, uma vez que Maciel, Alencar e Temer se reelegeram em 1998, 2006 e 2014 junto com os presidentes.

José Sarney também era vice, eleito pelo voto indireto, mas assumiu com a morte de Tancredo Neves, que nem chegou a exercer o governo.

Figura de vice perdeu a função

Vale ressaltar que, hoje, a posição de vice é um anacronismo. Um prefeito, governador ou presidente não precisaria mais transferir o cargo ao se ausentar do país porque pode se manter conectado e governar à distância. Mesmo ausências por conta de problemas de saúde poderiam ser resolvidas com o presidente do parlamento municipal, estadual, distrital ou nacional assumindo o lugar momentaneamente.

Na prática, o cargo de vice serve apenas para a composição partidária na campanha eleitoral. Além da possibilidade de sermos governados por um programa que não foi votado, uma vez que a experiência mostra que, passado um tempo, vice sentem-se desobrigados a seguirem linhas apresentadas na campanha, muitos deles são fonte inesgotável de instabilidade.

O ideal seria que em caso de cassação, renúncia ou morte, uma nova eleição fosse realizada de forma direta para que alguém, que se apresente à discussão pública, receba a chancela popular ao invés de pegar carona.

Em tempo: Há uma discussão acadêmica se o governo Jair Bolsonaro ainda seria parte da Nova República, que começa com a redemocratização pós-ditadura militar ou o início de um novo ciclo, por seu caráter autoritário. Defendo a segunda tese, mas isso fica a cargo dos historiadores.