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Leonardo Sakamoto

Em dia de protestos, Jair se humilha ao carregar general para mostrar força

Manifestação contra o governo Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo - Miguel Schincariol/AFP
Manifestação contra o governo Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Miguel Schincariol/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/07/2021 19h27

No dia em que protestos realizados em centenas de cidades no Brasil e no exterior reuniram milhares pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro, o presidente levou o general Braga Netto para um rolê de moto em Brasília. É humilhante que ele precise transformar o ministro da Defesa em pingente para mostrar que tem poder. Tanto quanto é humilhante que um ministro da Defesa se submeta a isso.

Braga Netto já demonstrou ser o mais bolsonarista dos ministros. A facilidade com a qual trata de golpe de Estado, ameaça o Senado Federal, ignora suas funções pressionando por mudanças no sistema eleitoral e faz silêncio diante do envolvimento de militares no escândalo de corrupção das vacinas mostra que o general compartilha integralmente dos mesmos valores distorcidos do seu chefe, o capitão reformado.

E, claro, a proximidade das Forças Armadas com a atual Presidência da República tem significado benefícios e vantagens aos militares.

Mas vale lembrar a ordem das coisas: um pingente não usa uma pessoa, é usado por ela. E por isso será lembrado pela história como um pingente.

Ao tentar de forma infantil convencer que a expressão "meu Exército" não é balela e que as Forças Armadas estão ao seu lado para efetivar seus planos políticos e eleitorais, Bolsonaro apenas reforça a fragilidade de sua situação. Um presidente deveria passar uma imagem de que inspira respeito sem precisar colar em outras pessoas. O que, claramente, não é o caso.

Bolsonaro faz passeio de moto com Braga Netto pela periferia de Brasília - Foto: Reprodução/Redes Sociais - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Bolsonaro faz passeio de moto com Braga Netto pela periferia de Brasília
Imagem: Foto: Reprodução/Redes Sociais

O impeachment não está logo ali na esquina. Agora ainda mais porque a lojinha passou a ser tocada diretamente pelo centrão, tendo como gerente o senador Ciro "Bolsonaro é um fascista preconceituoso" Nogueira (PP-PI). Enquanto ele for o "primeiro-ministro" de seu governo e a lojinha de cargos, emendas e aprovação de projetos estiver aberta, o presidente pode ficar tranquilo que não será abandonado.

Jair, que entregou mais poder em troca de proteção, deve estar preparado para entregar ainda mais. Quando Bolsonaro disse, na última quinta (22), "eu sou do centrão", ele até podia não perceber, mas estava falando literalmente. Hoje, esse grupo de parlamentares tem um presidente para brincar.

Claro que se empregos não forem gerados em quantidade suficiente (há 14,8 milhões de desempregados, de acordo com o IBGE, que representam 14,7% da população) e se a fome continuar aumentando entre os mais pobres (os valores pagos como novo auxílio emergencial não garantem que uma família coma dignamente), ao mesmo tempo em que mais denúncias de corrupção na compra de vacinas envolvendo o governo Bolsonaro forem surgindo pela CPI da Covid e as revelações de desvios de salários de servidores dos gabinetes da primeira-família continuarem, a insatisfação vai crescer e, com elas, os mesmos protestos de rua.

Guilherme Boulos (PSOL) faz selfie com Heloísa, filha de Olavo de Carvalho que se filiou ao PT - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Guilherme Boulos (PSOL) faz selfie com Heloísa, filha de Olavo de Carvalho que se filiou ao PT
Imagem: Reprodução/Twitter

O que é o termômetro para impedimentos e reeleições presidenciais. O centrão aceitou navegar com Bolsonaro, mas não é suicida. Até porque governos passam, mas o centrão é eterno.

Considerando que a pataquada do voto impresso foi enterrada após o quiproquó golpista de Braga Netto, sobrará para Bolsonaro recorrer a militares, contando que a dignidade deles já foi rifada por cargos e algum duvidoso prestígio. Será que eles vão ter coragem de desmenti-lo ou é isso mesmo?