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Leonardo Sakamoto

Da Cinemateca à Amazônia, gestão Bolsonaro reduz nosso patrimônio a cinzas

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

30/07/2021 09h01

O incêndio que consumiu parte de um depósito da Cinemateca Brasileira, na zona oeste de São Paulo, nesta quinta (29), não pode ser encarado como uma tragédia. A queima de um rolo de filme seria uma tragédia. Chamas consumirem parte da história do cinema e da TV, em um lugar que não contava com estrutura adequada de prevenção a incêndios, não é um acidente, mas um empreendimento.

Um projeto pacientemente implementado por um governo que condena seu patrimônio histórico, natural e cultural.

O Ministério Público Federal alertou, há mais de um ano, para o risco de incêndio na instituição. E a classe artística e a sociedade civil vêm apontando há tempos que a Cinemateca estava sendo consumida pela falta de manutenção e pelo desprezo da atual gestão, que colocou como Secretário de Cultura uma pessoa mais apta para o desmonte do que para a construção de qualquer coisa.

Um fogo como este é paradigmático de um projeto nacional que não vê o patrimônio como subsídio fundamental para a construção de um país melhor, mas como algo a ser extirpado para que o grupo que está hoje no poder possa, de um lado, reescrever o passado e construir um futuro à sua imagem e semelhança, e, do outro, lucrar com isso.

Sob Bolsonaro, o patrimônio do Brasil está queimando

O mês de junho teve o maior número de focos de calor registrados na Amazônia desde 2007, comparado ao mesmo mês nos anos anteriores, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe).

E por conta da queima de um equipamento que estava sem manutenção, o Brasil vive um apagão, desde sexta (23), em importantes plataformas de pesquisa do CNPq. Pânico foi gerado entre cientistas por conta de um equipamento sem contrato de manutenção.

E agora o depósito da Cinemateca com o registro de nossa produção audiovisual.

Isso não é apenas fruto da crise econômica que minguou o orçamento federal, mas faz parte de um sistema que ataca nosso patrimônio abertamente para que o país continue ignorante sobre si mesmo e alijado de suas potencialidades, favorecendo o grupo no poder ou seus parceiros políticos e econômicos. Há bilhões em emendas secretas de forma a abastecer os interesses da base de apoio ao governo no Congresso Nacional ou mesmo para comprar leite condensado. Mas não para monitorar, conservar e estudar nosso patrimônio.

Enquanto isso, parte da população não se sente proprietária e corresponsável pela coisa pública pelos mais diferentes motivos. Empurrada para a franja da cidadania, uma parcela aprendeu que o patrimônio nacional não lhe diz respeito - uma falsa conclusão incutida em suas cabeças cuja reversão depende de um trabalho longo e demorado. Em outro extremo, há quem conheça bem cinematecas na Europa e nos Estados Unidos, mas conta nos dedos de uma mão o número de instituições brasileiras que já visitou por falta de interesse ou preconceito.

Vivemos um momento em que rebanhos celebram nas redes sociais um incêndio como esse, pois o cinema nacional, até agora, teria sido feito por "comunistas", trazendo uma "narrativa" que não se encaixa com sua visão de mundo. Claro que são apenas uma barulhenta minoria, mas a burrice violenta assusta.

Tal qual as pessoas que comemoraram as montanhas de livros queimadas nas praças de diversas cidades da Alemanha nazista em 10 de maio de 1933.

Como já disse aqui mais de uma vez, burrice não é característica de quem separa sujeito e predicado por vírgula ou não sabe calcular uma raiz quadrada, mas de quem menospreza o patrimônio cultural, natural e histórico de um país, chegando a odiar quem o preserva ou quem busca seu aprendizado a partir dele. O burro é aquele que tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre ele próprio.

O problema não resolvido é que, quando alheio à história de sua própria caminhada, o povo não é povo, mas gado. E, como gado, pode ser tocado por qualquer um. Ver esse prédio em chamas pela TV traz a sensação de que somos um amontoado de mugidos difusos que não tem ideia para onde está indo. Tampouco faz questão de saber.

O projeto de desmonte, vale lembrar, ganhou velocidade e ferocidade com a gestão de Jair Bolsonaro, mas não nasceu agora. Vale lembrar que, em setembro de 2018, o Museu Nacional ardeu em estupidez.

Talvez o museu e o depósito da Cinemateca, ao se depararem com o momento atual do país, em que o conhecimento parece valer menos que achismos e opiniões sem embasamento e no qual fatos históricos são tratados como "notícias falsas" diante das certezas anônimas e absolutas das redes sociais, tenha simplesmente desistido de resistir. E queimado mais rápido, por conta do desgosto.