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Bolsonaro alega complô petista na urna enquanto 'conspira' para eleger Lula

Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

01/08/2021 11h18

Um dos embustes apresentados por Jair Bolsonaro para atrair seus fãs às manifestações em prol do voto impresso (e em defesa de um golpe de Estado), neste domingo (1), foi de que há um complô do Tribunal Superior Eleitoral para eleger Lula presidente em 2022.

Quem conhece os envolvidos solta uma gargalhada quando ouve essa estupidez, pois é mais fácil o tal camelo passar pelo buraco da tal agulha do que essa conspiração acontecer.

Pelo contrário, se a história recente nos ensinou algo, é que representantes do Poder Judiciário operaram para impedir Lula de participar da eleição presidencial de 2018. Um deles, inclusive, era um juiz federal que o tirou do pleito e, logo depois, virou ministro de Jair Bolsonaro.

O embuste é porque o principal cabo eleitoral do petista tem sido o próprio presidente da República, que realiza um governo ruim nas dimensões mais básicas. Suas ações diante da covid-19 geraram 14,8 milhões de desempregados, de acordo com o IBGE, e 556.437 mortos. Até agora.

Seja pelo negacionismo, seja pela corrupção na compra de vacinas, o governo esticou os picos da pandemia por muito mais tempo, fazendo com que perdêssemos postos de trabalho e amigos, colegas e parentes.

Até o auxílio emergencial, criado por pressão do Congresso Nacional, foi reduzido a valores pífios, com um piso de R$ 150 que não compra 25% da cesta básica em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Floripa, de acordo com dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Se Bolsonaro não fosse péssimo para a maioria dos trabalhadores e uma tragédia para os seres vivos em geral, das árvores aos humanos, ele não estaria com 51% de reprovação e 24% de aprovação, segundo o Datafolha, nem perdendo com amplas margens para Lula nas pesquisas de intenção de voto para 2022.

Não só porque é o presidente e, portanto, detém a máquina de fazer bondades e maldades, mas também porque chefes de governo tiveram a chance de serem vistos como líderes na guerra travada pelo mundo contra a pandemia. E líderes em tempos de guerra podem se tornar heróis, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern.

Mas sendo mais negacionista que Donald Trump, que ao menos encomendou vacinas em massa o mais rápido que pode, Jair preferiu ser lembrado como vilão.

A reclamação é apenas retórica, claro, pois esperar que Bolsonaro atuasse em prol dos trabalhadores humildes e não apenas de seus interesses pessoais e largasse mão da necropolítica que sempre o definiu seria esperar que um cachorro não latisse, um gato não miasse e um pato não flutuasse.

Em suma, ele não fez a população mais feliz e, por conta disso, outra pessoa está melhor posicionada nas pesquisas.

Isso pode mudar, claro. Temos mais de um ano até as eleições, o que é tempo mais do que suficiente para que o centrão, que está tomando os arreios do governo, busque beneficiar os mais pobres, com um aumento do Bolsa Família ou mesmo a extensão do auxílio emergencial 2022 adentro.

Ao mesmo tempo, o centrão pode tentar frear a sabotagem bolsonarista no combate à doença, principalmente se a variante delta repetir aqui o estrago que está causando em outras partes do mundo. O que seria irônico, uma vez que expoentes do centrão estão citados no escândalo de superfaturamento da compra de vacinas, ou seja, foram sócios da sabotagem.

Manifestações como a deste domingo apontam que o presidente se prepara para não reconhecer uma eleição em que não saia como vencedor. Ele não traz provas de que a urna eletrônica é passível de fraudes, apenas convicções bizarras que servem para excitar o seu rebanho - que ama uma teoria da conspiração. Incluir a impressão de votos na urna, do jeito que é proposto por ele, sem debate e cheio de mentiras, abre caminho para falcatruas ao invés de coibi-las.

A palavra de Jair basta para muitos irem às ruas, semeando o terreno de um golpe eleitoral em 2022. Com polícia, com milícia, com tudo.

Certos parasitas sugam o hospedeiro, mas não até a morte, pois sabem que dependem dele de terceiros para sobreviver. A questão é saber se o centrão vai conseguir salvar Bolsonaro dele mesmo.

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