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Leonardo Sakamoto

Ouro é a resposta da mãe de Rebeca à 'fábrica de desajustados' de Mourão

Rebeca Andrade e suas duas medalhas dos Jogos Olímpicos de Tóquio: ouro no salto e prata no individual geral - Laurence Griffiths/Getty Images
Rebeca Andrade e suas duas medalhas dos Jogos Olímpicos de Tóquio: ouro no salto e prata no individual geral Imagem: Laurence Griffiths/Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/08/2021 03h41Atualizada em 04/08/2021 14h15

O que acontece com uma família pobre criada apenas pela mãe? Em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral, o então candidato a vice de Jair Bolsonaro, general Hamilton Mourão, afirmou que ela se transforma em uma "fábrica de elementos desajustados" que tendem a ingressar no mundo do crime.

A "fábrica de elementos desajustados" da empregada doméstica Rosa Santos, mãe solo de sete, trouxe para o Brasil uma medalha de ouro no salto e uma de prata no individual geral da ginástica artística.

Rebeca Andrade, que finalizou, nesta segunda (2), sua participação nos jogos de Tóquio com o quinto lugar na apresentação de solo, tornou-se a primeira medalhista olímpica do esporte no país.

Por conta de sua competência e de sua trajetória, meninas e meninos querem ser como Rebeca quando crescerem. E o restante de nós conseguiu, mesmo que por um átimo, esquecer um pouco o duro cotidiano de um país em que um presidente da República ameaça dar um golpe de Estado.

Mourão teorizava sobre a família tradicional naquele setembro de 2018. "A partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais. Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai avô, é mãe e avó. E, por isso, torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nesta narcoquadrilhas", afirmou.

Diante da repercussão negativa, disse que fez apenas uma "constatação" e que foi mal interpretado pela imprensa, lembrando que defendeu investimento público para melhorar as condições de comunidades pobres.

O que ele não percebeu é que sua fala relacionou o surgimento da violência ao tipo de família estabelecida, o gênero dos envolvidos na educação e no cuidado com as crianças ou mesmo a sua classe social.

Na verdade, é quando o poder público se omite de suas responsabilidades, como a criação de um ambiente em que oportunidades sejam oferecidas aos mais jovens, garantindo acesso a esporte, assistência social, educação, lazer, moradia, alimentação e saúde de qualidade, é que os mais jovens se tornam, de fato, vulneráveis. E não se forem criados pela mãe ou pela avó.

Como já disse aqui, imaginem quantas Rebecas deixaram de desenvolver seu potencial e nunca foram reveladas em algum projeto de educação esportiva porque faltou apoio por parte do Estado, mas também da iniciativa privada?

O uso em abundância da palavra "meritocracia" esquece que o sucesso é uma somatória da atuação individual com o contexto em que a pessoa está inserida - que pode ser fértil ou não para talentos emergirem. Depende não apenas da vontade pessoal de chegar lá, portanto, mas também de quanto a sociedade aceita investir para que esse caminho seja trilhado. Medalhas devem ser semeadas sem pressa para serem colhidas no longo prazo.

A experiência brasileira também tem mostrado que mulheres apresentam um posicionamento mais crítico ao discurso do uso da violência para a solução dos problemas do que os homens e são mais racionais e estáveis na gestão de recursos - tanto que em programas de moradia popular e transferência de renda, o registro familiar é feito em seu nome.

Quem dera se a participação delas na vida política do país fosse bem maior, ao menos paritária à sua representação na sociedade. Provavelmente, teríamos mais "desajustados" como Rebeca e menos desajustados como homens violentos viciados em rachadinha.

Há um papel determinado para quem nasce negro, pobre e periférico no Brasil, ainda mais se vier de família sem "homem em casa", que a parte mais rica da população insiste em ver cumprido. Não raro, o termo "desajustado" tem sido usado para definir pessoas que cismam em não interpretar o papel que foi reservado à sua classe social, à cor de pele, à família de onde veio.

"Quem essa menina pensa que é?", postou uma raivosa senhora em uma rede social, fazendo eco a tantos outros raivosos que não suportam o fato de Rebeca ter tanta atenção do mundo inteiro.

É a melhor do mundo, a filha de Rosa, oras.