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Leonardo Sakamoto

'Último recado' de Bolsonaro ao TSE é vazio como o 'acabou, porra' ao STF

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

04/08/2021 18h07

Em uma das mais recentes ameaças de Jair Bolsonaro contra a democracia (desculpe, perdemos a contagem...), ele afirmou que poderia dar um "último recado" convocando um ato com o "povo" por conta do inquérito aberto contra ele pelo Tribunal Superior Eleitoral devido às falsas denúncias de fraudes nas eleições e às ameaças contra o pleito do ano que vem.

O "último recado" é primo do "acabou, porra!" que ele proferiu, em 28 de maio do ano passado, após o Supremo Tribunal Federal ordenar uma operação contra empresários e militantes bolsonaristas em meio à investigação sobre os ataques à corte por fake news.

O inquérito é conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, que foi alvo da fúria presidencial, assim como Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, tem sido vítima de pesados ataques das milícias bolsonaristas e da criminosa língua de Jair por defender a segurança da urna eletrônica e afirmar o risco representado pela introdução da impressão do voto em um sistema que já funciona bem.

O "acabou, porra" não deu em nada, uma vez que o inquérito continuou fazendo o presidente suar frio devido ao potencial de atingir especialmente o seu filho 02, Carlos Bolsonaro. Até as emas do Palácio do Alvorada sabem que o Gabinete do Ódio, estrutura que opera dentro da sede do Poder Executivo com influência do vereador carioca, serve para atacar políticos, magistrados, jornalistas e qualquer um que critique ao presidente.

Da mesma forma, apesar de o "último recado" poder reunir seus seguidores mais fiéis, a multidão será apenas uma sombra do que já foi o apoio a Bolsonaro - que era maior antes de o Brasil presenciar 560 mil mortes por covid-19 e um recorde de 14,8 milhões de desempregados. E, claro, quando o presidente ainda não tinha vendido publicamente a alma ao centrão em troca de manter os prazeres do cargo que ocupa.

O que o presidente chama de "povo" é apenas o naco dos brasileiros que concorda totalmente com ele, o que, segundo o Datafolha, dá uns 15% da população. E, tomando a parte como o todo, vende as demandas e a visão de mundo desse grupo que concorda com tudo o que ele diz como sendo as aspirações e opiniões de todos os brasileiros.

Qualquer movimentação de Bolsonaro, para além das bravatas, só deve ocorrer durante o período eleitoral do ano que vem. Depende de muitas variáveis: crescimento econômico e geração de postos de trabalho junto com a redução significativa das mortes pela epidemia e volta da vida à (quase) normalidade, o que pode ajudar com sua popularidade. Aliado a isso, há os resultados do trabalho do senador Ciro Nogueira, na gerência da lojinha da Casa Civil, na relação com o Congresso e a criação de programas assistenciais para trazer o voto dos mais pobres em 2022. Também teremos os desdobramentos do inquérito do TSE, que não tem poder para cassar o mandato atual, mas pode servir de subsídio para uma ação de partidos políticos contra Jair Bolsonaro após o registro de sua candidatura no ano que vem.

Daí, a depender do que aconteça, de um impedimento de Jair concorrer a uma derrota nas urnas, pode ter bolsonarista-raiz, miliciano carioca e a banda podre da polícia militar ocupando ruas para atender ao chamado "legalista" do "mito". Uma tentativa de golpe não deve ser bem-sucedida, mas, com a quantidade de armas que ele liberou por seus decretos, esse pessoal vai derramar sangue de inocentes.

Até lá, Bolsonaro ameaça o TSE com "último recado", como já ameaçou o STF com um "acabou, porra". Precisa provar à sua base radical que pode esmagar como um Hulk enquanto sabemos que, não raro, ele afrouxa quando chega o dia D e a hora H, agindo como Teletubbies. O que importa é o show. Então, podemos esperar muito ataque público à democracia.

A esmagadora maioria do povo quer um governo que garanta condições para qualidade de vida, segurança, liberdade. Não apoia a defesa de um novo AI-5 ou o uso do artigo 142 da Constituição para justificar a tutela da democracia por parte das Forças Armadas. Quer um presidente com um projeto consistente para geração de empregos e não alguém que gasta tempo para alterar algo que já funciona bem.

Bolsonaro tem tentado confundir a diversidade da população brasileira, seja ela de direita ou de esquerda, aos 15% que o apoiam cegamente. Quer mostrar que inquéritos contra ele são um ataque ao povo. E que o povo está ao seu lado quando, na verdade, o povo está preocupado em sobreviver porque o governo o abandonou.

Para ele, o povo está com ele porque o povo é esse naco. O resto é um pacote de desinformados, massa de manobra ou inimigos da nação.

Bolsonaro está com medo. E, quando tem medo, ladra. Mas não vai morder. Pelo menos, não neste ano.