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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro convence seguidores que foi o grande vencedor da 'arregada'

Jair Bolsonaro é recepcionado por Michel Temer no Palácio do Planalto, em Brasília - Eduardo Anizelli/Folhapress
Jair Bolsonaro é recepcionado por Michel Temer no Palácio do Planalto, em Brasília Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/09/2021 12h43

Bolsonaro teve que vir a público mais de uma vez desde as micaretas golpistas de 7 de setembro para convencer sua militância de que o "mito" não ficou "frouxo" e que seu recuo tático não foi uma arregada, mas parte de um plano infalível, sendo ele, portanto, o vencedor desta batalha. O fato de seus fãs estarem acreditando nisso mostra que o berrante digital de Jair se sobrepõe à reflexão individual dos bolsonaristas.

Após semanas de um presidente prometendo um recado contundente ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional, a militância mais radical passou a acreditar que havia chegado a tão sonhada hora de tropas marchando nas ruas, prisão de magistrados e parlamentares e tortura e extradição de jornalistas.

O que veio, contudo, foi um pedido para os caminhoneiros desobstruírem as estradas a fim de não aumentar ainda mais a inflação (em Brasília, por exemplo, a cesta básica subiu 34% nos últimos 12 meses, segundo o Dieese). E uma "Declaração Fajuta aos Desavisados da Nação", produzido com a ajuda do ex-presidente Michel Temer, que de golpe entende bem.

Com o movimento, Bolsonaro seguiu a tática de aproximações sucessivas: ataca e recua. Mas cada novo ataque é mais violento que o anterior. Agora, entra a turma do "pronto, tudo voltou ao normal", sendo que nada voltou ao normal porque o presidente atacou a democracia impunemente. E, daqui a pouco, ele ataca de novo.

A diferença é que, desta vez, o arrego foi grande porque o avanço também tinha sido.

Diante da revolta de seus seguidores frente à nota em que dizia que ameaças foram feitas no "calor do momento", Bolsonaro teve que vir a público para orientar a interpretação dos seus seguidores sobre texto na linha da narrativa que lhe interessava. Ele e sua tropa de choque venderam a ideia de que aquilo não era uma peça de recuo, mesmo que tático, mas parte do plano para conquistar o mundo.

Mais ou menos como a fábula "A Roupa Nova do Rei", do dinamarquês Hans Christian Andersen. A diferença aqui é que Bolsonaro e seus aliados têm consciência de que o rei está nu, mas querem impor a ideia de que está trajado com belas vestes à sua plebe. Que aceita feito um boi manso.

E como ele fez isso? O presidente criticou os apoiadores que "nem leram a carta e estão reclamando". Também afirmou que "alguns querem imediatismo; você namora e casa em uma semana, vai dar errado seu casamento".

Citando a situação econômica do país, afirmou que "não dá para ir para o tudo ou nada" - como se o seu comportamento pessoal não fosse o principal ruído para a inflação e a geração de empregos.

De acordo com o Datafolha, uma parcela de 15% da população acredita em absolutamente tudo o que o presidente diz. Isso significa, na prática, que a matriz de interpretação do mundo adotada por esse grupo não deriva de sua capacidade de analisar a realidade de acordo com seu conhecimento e experiências pessoais, mas da boca de Jair.

Claro que ele se aproveita de um viés de confirmação da extrema direita, entregando o que ela quer ouvir, e preenchendo as lacunas deixadas pela falta de informação desse grupo com teorias da conspiração a ele palatáveis. Mas não é possível acreditar na realidade paralela montada pelo presidente e por seus aliados sem ter terceirizado, em grande parte, sua própria capacidade de reflexão.

O ensaio de libertação dos seguidores, que ocorreu logo após Jair refugar, na avaliação deles, como o cavalo Baloubet du Rouet na final de saltos na Olimpíada de Sidney, foi abortado por uma intensa campanha digital. A hashtag #euconfionopresidente foi uma das mais compartilhadas no Twitter.

Foram deixados alguns feridos no meio do caminho, mas a base do presidente sofreu menos abalos que durante o tumultuado desembarque de Sergio Moro do bolsonarismo, o que demonstra resiliência de Jair, mas também efetividade no trato com o rebanho.

Além disso, vale lembrar que o seu governo continua. Sim, sua gestão é um caos de inflação, desemprego, fome e morte. Mas o que chamamos de inferno, a militância bolsonarista dos tiozão do zap, mas também a formada por ruralistas, empresários, religiosos e milicianos chama de paraíso. O presidente prometeu liberdade total para esse grupo fazer o que quiser. E, desde então, para eles fala e para eles governa.

"Conhecereis a verdade e ela vos libertará", diz João capítulo 8, versículo 32, passagem bíblica exaustivamente citada por Jair. A questão é que a verdade que vale é apenas a definida por ele.