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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro usa megafone da ONU para distribuir fake news aos fãs no Brasil

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/09/2021 12h05

De onde não se espera nada é que não vem nada mesmo. Contrariando os otimistas, que acreditavam que Jair Bolsonaro usaria seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas para vender uma versão mais palatável de seu governo, ele fez uma live de luxo voltada ao seu público. A diferença é que esta custou muito mais ao contribuinte. E não teve xingamentos, como aquelas às quintas-feiras.

Bolsonaro não dialogou com o mundo, mas produziu mais um vídeo para os 15%, segundo o Datafolha, que acreditam em tudo o que ele diz. E aproveitou os holofotes da imprensa brasileira e das redes sociais para produzir uma peça para sua campanha eleitoral que, ilegalmente, já está em andamento. O discurso teve conteúdo semelhante aos dos comícios que ele tem realizado pelo país.

Logo no início, soltou uma metralhadora ideológica para excitar os seus seguidores e mostrar que o "mito está on". Apesar dos escândalos na compra de vacinas, disse que o Brasil não registra corrupção. Mandou um salve para os religiosos e os militares. Fantasiou que o país estava à beira do socialismo e que o país servia a governos comunistas antes dele. Afirmou que a família tradicional é o "fundamento da civilização", excluindo qualquer outro modelo que não seja pai, mãe e filhos. Disse que os refugiados afegãos "cristãos" são bem-vindos.

Mentiu que as suas micaretas golpistas de 7 de setembro foram as maiores manifestações de nossa história. Mentiu que pagou um auxílio emergencial de 800 dólares (mais de R$ 4200, em valores de hoje). Mentiu ao afirmar que a economia demonstra "um dos melhores desempenhos entre os emergentes". Mentiu ao dizer que seu governo "recuperou a credibilidade externa" do Brasil. Vale lembrar que o país, sob sua gestão, tornou-se irrelevante geopoliticamente e um pária do ponto de vista ambiental e sanitário, pelo aumento na destruição da Amazônia e quase 600 mil mortes por covid. E devido à instabilidade política que ele mesmo provoca, há insegurança para investidores.

No discurso, Bolsonaro terceirizou a sua responsabilidade pela alta da inflação a governadores e prefeitos, afirmando que ela é consequência do isolamento social, repetindo o mantra que usa no Brasil. Nada sobre o impacto do aumento da gasolina (consequência do aumento do dólar, diretamente relacionado à instabilidade que ele provoca) e da energia elétrica (causada pelos erros de sua gestão diante da crise hídrica) nesse processo.

Ao abraçar a cloroquina na ONU, Bolsonaro reforçou o Brasil como pária sanitário global

Mas o auge foi o momento em que o presidente defendeu a farsa do "tratamento precoce" - a adoção de remédios sem eficácia para a covid-19, como cloroquina, ivermectina e azitromicina. E ainda teve a cara de pau de dizer que "a história e a ciência saberão responsabilizar a todos" os que não foram pelo mesmo caminho.

"Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso off-label. Não entendemos porque muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial", afirmou.

Bolsonaro também disse que, desde o início da pandemia, o seu governo apoiou "a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina".

Ao contrário do CFM, que ignorou a ciência para ajudar o presidente, a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), ou seja, quem representa o pessoal que está na linha de frente, afirmam que não há tratamento precoce contra a covid.

No Brasil, o presidente vê um novo escândalo estourar envolvendo um experimento do plano de saúde Prevent Senior, que usou pacientes como cobaias para testar a eficácia da cloroquina, sem que eles tivessem dado seu consentimento. Denúncias de médicos apontam que os resultados foram manipulado, omitindo mortos que usaram cloroquina. O presidente utilizou esses dados para justificar a distribuição em massa do medicamento.

E, em janeiro deste ano, enquanto pacientes de covid-9 sufocavam em Manaus por falta de oxigênio hospitalar, o governo tentou empurrar cloroquina. Uma das ferramentas para isso foi o lançamento do aplicativo TrateCov, que recomendava o uso do remédio até por bebês diante de qualquer sintoma de gripe. O presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM) afirmou que os manauaras se tornaram cobaias de um experimento do governo.

Joe Biden, que veio logo depois e fez um discurso voltado ao mundo, não aos Estados Unidos, deve ter agradecido a Bolsonaro no seu íntimo.

O tamanho pequeno do garoto Jair, que pensa só no seu quintal porque sabe que não é maior do que isso, ajudou a dar ainda mais envergadura ao discurso do norte-americano, que vinha sendo alvo de críticas por sua desastrosa saída do Afeganistão.