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Leonardo Sakamoto

Viagem de Bolsonaro e Queiroga à ONU serviu apenas para espalhar covid-19

 Bolsonaro e Queiroga participam de audiência com o presidente da Pfizer da América Latina, Carlos Murill - Isac Nóbrega / PR
Bolsonaro e Queiroga participam de audiência com o presidente da Pfizer da América Latina, Carlos Murill Imagem: Isac Nóbrega / PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/09/2021 03h25

Jair Bolsonaro pode ter espalhado mais do que apenas negacionismo em sua bizarra passagem pela Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça (21). Após a confirmação de que o ministro da Saúde e outro servidor público testaram positivo para covid-19, a delegação brasileira pode ter espalhado coronavírus.

Marcelo "Dedo do Meio" Queiroga esteve em encontros com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que, por sua vez, teve contato com o presidente norte-americano, Joe Biden. Também esteve com o presidente da Polônia, Andrzej Duda, e com o secretário-geral da ONU, António Guterres. Vale lembrar que o ministro passou boa parte do tempo com outros membros da delegação, como o chanceler Carlos "Arminha com a Mão" França e o próprio Jair "Antivacina" Bolsonaro.

Infectologistas alertam que há uma janela de imunidade de alguns dias entre o contato com o vírus e a possibilidade de detecção do coronavírus por testes. Alguns dos que voltaram ao Brasil, mesmo com o PCR negativo, podem vir a desenvolver a doença. O mesmo vale para quem ficou em Nova York - de membros da missão diplomática até os garçons da churrascaria brasileira que atenderam ao presidente.

Claro que, em uma pandemia, todos estamos sujeitos a esse tipo de situação. A questão é que Bolsonaro não apenas coloca a si e aos outros em risco como se apresenta como um defensor do coronavírus. Este 21 de setembro ficará registrado como o dia em que um presidente defendeu cloroquina e imunidade de rebanho, símbolos do negacionismo, no púlpito da Assembleia Geral.

Mas não apenas ele, afinal nenhum líder autoritário age sozinho. O amor que o ministro da Saúde demonstra ao cargo, que parece maior do que a importância que dá ao juramento que fez ao receber o diploma de médico, representa outro entrave para o enfrentamento da pandemia.

Bolsonaro pressiona para o fim do uso obrigatório de máscaras? Queiroga afirma a um site bolsonarista que é contra a obrigatoriedade do uso. Bolsonaro faz propaganda do "kit covid"? Queiroga não critica o chefe e evita fazer uma campanha de esclarecimento sobre remédios inúteis. Bolsonaro ouve de seus seguidores formados em medicina pelo WhatsApp que vacinas fazem mal a adolescentes? Queiroga suspende a vacinação dessa faixa etária.

Apesar do verniz do diploma de medicina, ele vem se mostrando um Pazuello de jaleco branco, cedendo a pressões anticiência do presidente da República. E não percebe que atropelar o Juramento de Hipócrates, principalmente na parte do "nunca causar dano ou mal a alguém", é obscenidade maior do que mostrar o dedo do meio a manifestantes.

Em seu discurso na Assembleia Geral, Bolsonaro praticamente ignorou o mundo e falou aos seus seguidores, como esperado. Para representantes de outros países, a imagem que ficou do Brasil não é mais de um país plural e alegre, mas um paraíso para uma extrema direita ignorante. Seria mais barato se ele tivesse feito uma live do Palácio do Planalto.

E o custo ao contribuinte deve aumentar ainda mais.

Queiroga deve cumprir uma quarentena nos Estados Unidos no hotel de luxo em que está hospedado, o que será uma bica aos cofres públicos. Se ele precisar, poderíamos passar um rosário de opções de bons hotéis, com preços honestos, para que fique os 14 dias, evitando causar mais dano e mal à sociedade. Mas desconfio que não vá querer.

Desejo que ele se recupere rápido, coisa impossível para quase 600 mil brasileiros. E que não recorra a produtos inúteis contra a covid, como cloroquina, ivermectina e ozônio. Nem seja forçado a ser cobaia em experimento de plano de saúde.