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Leonardo Sakamoto

Advogada aponta Bolsonaro e Prevent Senior como sócios de esquema da morte

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/09/2021 13h09

A Prevent Senior e o governo Bolsonaro foram sócios de um esquema da morte. É isso o que reforça o depoimento da advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos que trabalhavam para a empresa, à CPI da Covid, nesta terça (28).

Ela apontou que o plano de saúde, acusado de usar seres humanos como cobaias em experimentos não autorizados e de alterar prontuários e atestados de óbitos de pacientes para retirar a covid-19 como causa, foi uma peça fundamental na política do governo brasileiro para tentar convencer a população a voltar à normalidade mesmo com a mortalidade trazida pela pandemia.

Afinal, os comprimidos de remédios ineficazes para covid-19, como cloroquina, ivermectina e azitromicina, protegeriam a todos. Uma mentira mortal.

Essa política, segundo Morato, se alinhava a interesses do Ministério da Economia, que precisava de uma justificativa "científica" a fim de evitar o fechamento de atividades e impedir uma retração do PIB e do emprego. Buscou-se, então, construir esses comprimidos inúteis para a doença como um elixir mágico.

O esquema contou com a intermediação do chamado Gabinete Paralelo do Ministério da Saúde, encabeçado por negacionistas como os médicos Nise Yamaguchi, Paolo Zanotto e Anthony Wong. Este último, inclusive, faleceu de covid apesar do uso do "tratamento precoce". De acordo com as denúncias, teve seu prontuário manipulado pela Prevent Senior para evitar danos à imagem desses medicamentos.

Bolsonaro e os ministros da Saúde Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga sempre afirmaram que não poderiam ir contra a autonomia dos médicos em receitar hidroxicloroquina e ivermectina. Mas o plano de saúde fez isso por eles. Segundo Bruna Morato, profissionais de saúde eram obrigados a prescrever o "kit covid". Algumas vezes, a prescrição já chegava pronta de cima.

A empresa também é alvo de investigações no Ministério Público e na Polícia Civil por conta das denúncias.

Técnicas abomináveis do plano de saúde foram úteis à narrativa de Bolsonaro

A Prevent Senior, com seus experimentos manipulados e técnicas que quase poderiam ser adotados por Josef Mengele, médico-carrasco do nazismo, acabou garantindo justificativa para o uso desses remédios em larga escala. Tanto que Bolsonaro e seus filhos utilizaram os dados manipulados sobre a sua eficácia para empurrar pessoas às ruas.

E, de certa forma, ainda usam. Seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas surpreendeu por defender a cloroquina como saída para a covid-19. Disse que a História ainda lhe dará razão. Na verdade, se ele tiver o mesmo destino de líderes que brincaram de Deus, a história lhe levará à cadeia.

E não foi a única vez que brasileiros foram feitos de cobaias de "kit covid" sem a sua anuência. Em mais de uma ocasião, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), reclamou que o governo Bolsonaro fez isso com os manauaras usando o aplicativo TrateCov, que empurrava o medicamento, ao invés de mandar oxigênio à cidade.

Caso não tivesse sabotado as medidas de isolamento social, promovido remédios inúteis, combatido o uso de máscaras e negado contratos de compra de vacinas no ano passado, a pandemia seria mais curta, não teríamos 600 mil mortes e a economia teria voltado a um (quase) normal muito antes, com menos desemprego, menos fome, menos pobreza.

Jornalistas têm alertado para essa conexão econômica e, por isso, sido atacados pesadamente pelo Gabinete do Ódio. Indício de que aí residem fatos que Bolsonaro não quer que venham a público.

A presença da advogada Bruna Morato ocorre após denúncias de um dossiê de médicos e ex-médicos da empresa ser enviado à CPI e divulgadas, no dia 16, por Guilherme Balza, da GloboNews.

Nove pacientes morreram durante o experimento conduzido pelo plano de saúde - seis haviam tomado hidroxicloroquina, dois não e não havia informação sobre um caso. Mas seus autores só mencionaram dois óbitos que não estavam relacionadas à covid ou ao medicamento, um exemplo da manipulação de mortes.

Mesmo após o Ministério da Saúde reconhecer que os produtos não tinham efeito, a empresa continuou receitando-os. É mais barato dar comprimido do que manter no respirador - o que pode ser decisivo para uma rede que atende basicamente idosos. Quanto economizou o plano de saúde com essa empurroterapia e quais os danos para a saúde dos seus clientes diante de práticas como retirar pessoas da UTI e deixá-las só com os remédios são dúvidas em aberto.

Bolsonaro tem sido o principal garoto-propaganda da cloroquina. O presidente, que é médico formado pela Universidade do WhatsApp, não demonstrou que se importa se brasileiros morreram com a sua receita, apenas se voltaram às ruas enganados pela promessa do tratamento precoce, barato e rápido. Para ele, vidas continuam um detalhe na longa estrada de sua reeleição.