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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro mente que vacina leva à Aids para povo esquecer botijão a R$ 130

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/10/2021 16h35

Em mais uma cortina de fumaça para distrair a atenção da sociedade da inflação, da fome e do caos na área econômica de seu governo, o animador de auditório Jair Bolsonaro contou a mentira de que a vacina contra a covid-19 está levando à Aids. Sim, eis que, no fundo do poço, havia mais um alçapão.

Infectologistas vieram a público para alertar que os imunizantes não transmitem HIV, nem causam o desenvolvimento da doença - negativa que seria desnecessária se a totalidade da sociedade entendesse que convive com um presidente que utiliza a mentira como instrumento de governo e que esse tipo de declaração estúpida amplia o preconceito contra a população que convive com o HIV e pode afastá-la da necessária vacinação.

Na última quinta (21), em seu momento de espalhar LSD (Live Semanal de Desinformação) na população, Bolsonaro se baseou em sites que publicaram informações falsas e manipuladas, que citaram fontes no Reino Unido que nunca trouxeram tal informação. Afirmou que relatórios "sugerem que os totalmente vacinados estão desenvolvendo a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids) muito mais rápido que o previsto".

Essa entra para a coleção de absurdos de Jair, que já disse que vacinas transformavam pessoas em jacarés, faziam nascer barba em mulheres e matavam adolescentes.

Já não bastasse o botijão de gás que chega a custar mais de R$ 130, a gasolina a R$ 7,50, famintos revirando caminhões de lixo e a conta de luz pela hora da morte, o seu governo estava em meio a uma tempestade, naquela quinta, com quatro secretários do Ministério da Economia tendo pedido demissão após Paulo Guedes afirmar que furaria o teto de gastos para acomodar o Auxílio Brasil. O projeto, oportunista e eleitoreiro, vai substituir o bem-sucedido Bolsa Família, implodindo o que ele tem de bom.

Na sexta, Bolsonaro teve que fazer uma coletiva à imprensa ao lado de seu ministro para desmentir os boatos de que Paulo Guedes estava de saída, o que levou a um surto do mercado financeiro. O projeto de Bolsonaro é ruim, mas a Faria Lima surta toda vez que uma necessária e urgente transferência de renda aos pobres entra na pauta.

O governo Jair Bolsonaro ajudou a sabotar o combate à covid-19, atacando o isolamento social, o uso de máscaras e a compra de vacinas, além de promover remédios inúteis, com o objetivo de empurrar pessoas de volta às ruas para que a economia não atrapalhasse a reeleição. Ironicamente, isso tornou as quarentenas mais ineficazes, estendendo a pandemia e, com isso, a crise econômica.

Além disso, o governo suspendeu o auxílio emergencial no final do ano passado, para poupar recursos e fazer com que o povão, com fome, voltasse às ruas, ou seja, deixando as pessoas no relento no momento mais letal da covid-19.

Os ataques de Bolsonaro às instituições e a falta de um projeto de Guedes para a economia ajudaram a gerar instabilidade, o que elevou o preço do dólar. Consequentemente, isso teve impacto nos combustíveis, no gás de cozinha e nos alimentos. Paralelamente, a incompetência do governo na gestão hídrica agravou a crise, explodindo o preço da conta de luz.

Ao longo de seu governo, Jair Bolsonaro gastou mais tempo soltando cortinas de fumaça para proteger a si mesmo e aos seus do que preparando projetos para a geração de empregos de qualidade.

Dessa vez, contudo, a tática não foi eficiente, uma vez que a declaração bizarra repercutiu apenas no final de semana. A quinta e a sexta foram dedicadas à discussão sobre a capitulação da área econômica de seu governo ao centrão na busca pela reeleição. Com direito à resignação do mercado financeiro, que prefere Paulo Guedes como objeto de decoração do que Lula de volta ao poder.

A mentira, contudo, vai circular nas redes por um bom tempo. Segundo a última pesquisa Datafolha, apesar de 57% nunca confiarem no que Bolsonaro diz e 28% confiarem apenas às vezes, 15% acreditam em tudo o que o homem fala. Esse tipo de conteúdo reverbera entre esse grupo. Talvez não tenha a capacidade de aumentar os negacionistas antivacinação, mas pode aumentar o preconceito contra pessoas que vivem com HIV, o que campanhas levaram décadas para reduzir.

Melhor seria se Jair, da próxima vez que quisesse uma cortina de fumaça, dançasse seminu abraçado a uma jaca. Não é uma cena que minhas retinas cansadas gostariam de ver, mas pelo menos causaria menos dor nas pessoas.