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Leonardo Sakamoto

STF mantém freio no Pix de Lira e impõe derrota ao mensalão de Bolsonaro

 Agência Brasil/Marcelo Camargo
Imagem: Agência Brasil/Marcelo Camargo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/11/2021 19h06

Seis dos dez ministros do Supremo Tribunal Federal votaram pela suspensão do pagamento de emendas do "orçamento secreto" - bilhões de reais enviados aos redutos eleitorais de deputados e senadores, sem transparência ou possibilidade de controle público. Se o placar não mudar ou se o centrão não encontrar uma saída criativa, isso significa um duro golpe no mensalão que o governo Jair Bolsonaro estabeleceu com o Congresso Nacional.

Não à toa o presidente afirmou a um veículo bolsonarista, mais cedo nesta terça, que "cada vez mais o Supremo interfere em tudo". Ignora, propositadamente, que cada poder da República não é livre para fazer o que bem entender, mas deve seguir a Constituição Federal. E quando os outros poderes saem da linha, cabe ao outro atuar para colocá-los de novo no lugar, em um sistema de freios e contrapesos.

Quem está fora de lugar não é o Judiciário, pelo menos não neste caso, mas o Legislativo e o Executivo, que mantêm uma relação institucionalmente incestuosa, no escuro, para proveito mútuo e prejuízo da população. Por enquanto, os votos a favor da suspensão até que o pagamento de emendas seja feito às claras são de Rosa Weber, Luís Roberto Barroso, Cármen Lúcia, Edson Fachin, Ricardo Lewandowski e Alexandre de Moraes.

Como o centrão é uma força da natureza, mesmo antes do resultado no STF deputados já se movimentavam em busca de formas de continuar alocando recursos do orçamento de forma maquiada, sem que órgãos públicos de controle, a sociedade civil organizada, jornalistas e cidadãos tenham acesso a essas informações. Afinal, onde esse pessoal pensa que está para exigir publicidade dos gastos públicos conforme previsto na Constituição? Numa democracia?

Mas eles vão ter que lidar com o indicativo de que os ministros do Supremo vão continuar tentando colocar água nesse chope. Afinal, com uma parte do Congresso recebendo um mensalão na forma de emendas de orçamento secreto para agir como cliente do Palácio do Planalto e com a Procuradoria-Geral da República agindo como fiel escudeira do presidente, sobra mesmo apenas o STF. Há, hoje, um naco de parlamentares fazendo coro aos ataques de Jair Bolsonaro à corte, clamando por liberdade. Neste caso, liberdade de usar o dinheiro do contribuinte para beneficiar a si mesmo nas eleições.

Vale lembrar que tudo isso começou com a boa e velha investigação jornalística. Quem primeiro trouxe a público o esquema em que o governo Bolsonaro usa esse orçamento secreto para comprar apoio político foi o jornal O Estado de S.Paulo, em maio deste ano.

Os deputados poderiam ter usado a mesma criatividade com a qual montaram e abastecem essa estrutura de pagamentos para encontrar formas de bancar os R$ 400 do Auxílio Brasil sem passar pela PEC dos Precatórios - um calote em dívidas públicas que dá uma banana até para aposentados. Mas a proposta não nasceu para matar a fome dos mais pobres e sim garantir R$ 10, 20 ou 30 bilhões (dependendo do cálculo) a mais no orçamento para deputados gastarem, na forma de emendas, em seus redutos nas eleições.

É irônico que quase R$ 1 bilhão nessas emendas obscuras foram destinadas na semana que antecedeu a aprovação em primeiro turno da PEC. Ou seja, deputados receberam dinheiro (alguns dizem que a conta foi de R$ 15 milhões por cabeça) para aprovar um projeto para que recebam ainda mais dinheiro.

Quem tem definido a destinação dos recursos é o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que atende aliados e ignora adversários. Isso aumenta o seu poder diretamente sobre os deputados e reduz a influência dos partidos. Em seu voto sobre uma ação movida pelo PSOL, a relatora do caso, ministra Rosa Weber, explicou como funciona o esquema de compra de fidelidade da base no Congresso Nacional:

"Causa perplexidade a descoberta de que parcela significativa do orçamento da União Federal esteja sendo ofertada a grupo de parlamentares, mediante distribuição arbitrária entabulada entre coalizões políticas, para que tais congressistas utilizem recursos públicos conforme seus interesses pessoais, sem a observância de critérios objetivos destinados à concretização das políticas públicas a que deveriam servir as despesas", afirmou a ministra.

A batalha para impedir transparência sobre o nosso dinheiro está apenas começando. Como em qualquer comércio, Bolsonaro vai perder clientes se a estrutura montada para distribuir recursos ficar congelada ou for tão transparente que todos vejam deputados, senadores e o presidente dançando ula-ula-ula-ê, nus em pelo, com taças de prosecco na mão. Outro que tem a perder é o próprio Lira, cuja força é diretamente proporcional a ser capaz de garantir as demandas dos parlamentares, principalmente as demandas financeiras.

De propostas para usar outros tipos de emendas até a aprovação de decretos permitindo a continuidade do repasse através do sistema atual, o céu é o limite para as possibilidades a serem adotadas pelo parlamento para tentar contornar a proibição. Imagine se usassem essa criatividade toda para matar a fome do povo e proteger as contas do país ao mesmo tempo?