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Leonardo Sakamoto

Nascido em São Gonçalo, Freixo diz que mortes mostram um Rio sem governo

Moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), recolhem corpos em área de manguezal nesta segunda-feira (22), após operação da PM no último final de semana - Jose Lucena/Futura Press/Folhapress
Moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), recolhem corpos em área de manguezal nesta segunda-feira (22), após operação da PM no último final de semana Imagem: Jose Lucena/Futura Press/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/11/2021 11h14

"As mortes em São Gonçalo mostram um Rio no fundo do poço. Temos uma crise profunda de Segurança Pública porque temos uma crise política profunda. Cinco ex-governadores presos, uma máfia que governa o Estado."

A avaliação foi feita à coluna pelo deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), líder da Minoria na Câmara dos Deputados, sobre a ação do Bope no Complexo de Salgueiro, município da região metropolitana do Rio. Até agora, são oito mortos.

Os corpos foram retirados por moradores de um manguezal, nesta segunda (22), e, segundo eles, apresentavam marcas de tortura. Na avaliação de Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, "o que aconteceu foi uma chacina cometida por agentes de Estado".

A operação foi realizada após a morte de um policial na comunidade, levantando a suspeita de execuções por vingança. "A morte de um sargento de 40 anos, que deixa dois filhos, é grave. E como resultado, temos uma operação que deixou oito pessoas mortas na favela", afirma Freixo, que é pré-candidato ao governo do Rio.

"O Rio está mergulhado na ordem do crime, que ocupou o lugar da ordem da lei. E isso tem muita relação com o bolsonarismo, uma ordem da violência, da morte, do controle do território", avalia. "Quem pode ser mais violento joga a aposta mais alta."

Nascido em São Gonçalo e tendo presidido tanto a CPI das Milícias quanto a CPI das Armas quando deputado estadual, Freixo avalia que a política do Rio sempre influenciou a sua polícia e, com o apodrecimento da primeira, a segunda sentiu os efeitos.

"Uma polícia sem investimento, sem modernização, reflexo de uma política muito ruim, desqualificada. O Jacarezinho [ação policial com 27 civis mortos em maio] e o Salgueiro não são uma questão pontual. "Você não tem investimento, protocolo, regra, respeito às instituições, Estado. Faz tempo o Rio não tem governo."

O contexto social e econômico, na sua opinião, piora a situação. Avalia que os índices da economia, da educação e da saúde no Rio são incompatíveis com a importância do Estado no cenário nacional, o que impacta na qualidade da segurança pública. Para ele, é impossível garantir paz enquanto as comunidades morrem por bala, mas também de fome.

"Isso foge a uma perspectiva de planejamento e das instituições. Este não é um debate sobre quantos morreram em uma operação, pois quem está morrendo é o Rio", conclui.