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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro queria o Brasil como era 50 anos atrás. Com a fome, conseguiu

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

29/11/2021 06h59

"O pão de cada dia quem me dá é o lixo. Todo dia, meus filhos e eu vamos para o lixo para comer. Quando o caminhão chega, a gente tem que ser muito ligeira para pegar."

A declaração é de uma mulher que disputava restos de alimentos em um caminhão de lixo em Fortaleza - cena que viralizou pelas redes, tornando-se representativa deste momento do país.

Não foi a única. Em outro caso, um caminhão que transportava restos de carne e ossos era disputado por famílias no Rio de Janeiro. O motorista afirmou ao jornal Extra que, antes, as pessoas buscavam os ossos para os cachorros, mas hoje pedem para si.

Na mesma época em que essas imagens provocavam indignação, no início de outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) soltava a previsão de que o Brasil deve ter uma safra recorde de grãos no período 2021/2022, com 288,61 milhões de toneladas - um aumento de 14,2% em relação ao ciclo anterior.

A economia brasileira, uma plataforma de exportação de commodities, é pensada para abastecer o mundo, mas não a nossa própria despensa. Vale lembrar isso, quando tentarem te convencer que o problema não é a desigualdade social, mas apenas a pobreza.

De acordo com pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 19,1 milhões passaram fome em um universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida no final de 2020. Os famintos eram 9% da população, a maior taxa desde 2004.

Os números, claro, já estão desatualizados e a fome cresceu por conta da política adotada pelo presidente Jair Bolsonaro na pandemia - apesar de seus seguidores mais fiéis culparem as medidas que salvaram vidas da covid-19 pelo caos.

Caso ele não tivesse sabotado as medidas de isolamento social, nem combatido o uso de máscaras, muito menos promovido remédios inúteis para a covid-19, como a cloroquina, a pandemia teria sido mais curta e a economia voltado ao normal antes, com menos mortos e menos fome. O Brasil registrou mais de 614 mil óbitos pela doença até agora.

Para piorar, no momento em que a crise apertou, Bolsonaro suspendeu o auxílio emergencial que estava sendo pago a pobres sem emprego no começo deste ano durante 96 dias. E só o retomou após grande pressão social, com valores insuficientes para comprar 25% da cesta básica de alimentos em grandes cidades do país.

Enquanto isso, o dólar disparava frente à moeda brasileira devido à instabilidade criada pelo próprio presidente, que ameaçava um golpe de Estado, e pela falta de projeto de seu governo para a economia.

O dólar mais alto impactou no preço do petróleo e, portanto, do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação no preço dos alimentos.

Durante a campanha eleitoral, em outubro de 2018, Jair Bolsonaro afirmou, em entrevista à Rádio Jornal, de Barretos, que o objetivo de seu governo era fazer "o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás". Em termos da fome, ele conseguiu. É novembro de 2021, mas parece a luta contra a carestia do início dos anos 1970, escondida pela ditadura militar.

Em muitos lugares, tudo isso geraria uma convulsão social. No Brasil, contudo, o sistema é desenhado para a contenção.

Após ter sido presa por furtar dois pacotes de macarrão instantâneo, dois refrigerantes e um suco em pó, no dia 29 de setembro, em um supermercado de São Paulo, uma mulher teve seu pedido de liberdade negado duas vezes pela Justiça. Mãe de cinco filhos, desempregada, morando com a família na rua, ela disse que roubou por fome.

Mas como não era o primeiro crime que havia cometido, os juízes não queriam soltá-la. Foi necessária uma comoção nacional e uma decisão de uma alta corte para que fosse liberada. Seu roubo havia custado R$ 21,69. Parte do Brasil convive bem com a fome dos outros, desde que ela não faça barulho.

Em tempo: Nessas horas, lembro-me de uma citação atribuída ao já falecido Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista". Daqui até as eleições de outubro do ano que vem, vamos ouvir bastante os fãs do presidente chamarem de comunista quem denuncia as causas da fome.