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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro copia Lula com desconto no Fies, Auxílio Brasil e transposição

                         - TOMAS CUESTA/AFP E ISAC NóBREGA/PR
Imagem: TOMAS CUESTA/AFP E ISAC NóBREGA/PR
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

31/12/2021 11h59

Após Lula defender a anistia aos estudantes devedores do Fies, Bolsonaro correu para afirmar que estava planejando algo nesse sentido em uma live no início de dezembro. Nesta quinta (30), ele publicou Medida Provisória permitindo renegociação da dívida e abatimento de até 92% do valor. Apesar de não admitir, está copiando descaradamente o petista para atrair os eleitores dele.

Se for para ajudar a população, ótimo, que copie à vontade.

O mesmo aconteceu com o Bolsa Família, que Jair rebatizou de Auxílio Brasil. Durante anos, o atual presidente destilou ódio para o programa de distribuição de renda, reconhecido internacionalmente pelos seus resultados no combate à fome. Agora, agarra-se à ideia de olho na transferência de votos que ele pode trazer, aumentando-o para R$ 400/mês.

"O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque se for trabalhar, perde o Bolsa Família", afirmou, por exemplo, em entrevista à Record News, em 2012.

"O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada", disse em entrevista ao documentarista Carlos Juliano Barros, em 2015.

Outro tema sequestrado por Bolsonaro com objetivos eleitorais foi a transposição das águas do rio São Francisco. Iniciada no governo Lula e tocada durante as gestões Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), a obra já estava operacional e mais de 90% concluída quando o atual presidente assumiu o país. Mas publicações de seu governo acabam transformando ações tocadas por seus antecessores como feitas por ele.

Infelizmente na politica, é comum que gestões anteriores sejam ignoradas no momento da inaugurações de projetos. Bolsonaro, contudo, usou e abusou da produção e distribuição de imagens suas com as águas correndo pelos canais da transposição, buscando sequestrar a paternidade da obra e os seus dividendos.

Pesquisa Datafolha, divulgada neste mês, aponta que Lula tem 56% das intenções de voto entre eleitores com até dois salários mínimos, enquanto Bolsonaro conta com 16%. Esses eleitores de baixa renda representam 51% da amostra do instituto e, portanto, a maioria dos brasileiros. Entre a população geral, o petista tem 48% frente a 22% do novo filiado ao PL.

Daqui até as eleições devemos ter mais casos de marcação cerrada de Bolsonaro sobre propostas de Lula que atinjam esse público, usando a bilionária máquina de bondades do governo para tanto.

Pela reeleição, podemos esperar que Jair faça qualquer coisa. Menos interromper as férias em nome de catástrofes e tragédias, claro.