PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Terceira onda 'mais leve' já mata mais de 600 pessoas por covid em 24 horas

8.dez.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante evento em Brasília - Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
8.dez.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante evento em Brasília Imagem: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
Conteúdo exclusivo para assinantes
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/01/2022 07h34

O Brasil registrou, nesta quarta (26), 606 mortes por covid-19 em 24 horas. No dia anterior, haviam sido 489. Quando isso aconteceu na primeira e na segunda ondas da pandemia, entramos em estado de alerta. O que está longe de acontecer agora.

Nesta terceira onda (chamemos as coisas pelo seu nome), nosso comportamento mudou pelo cansaço de quase dois anos vivendo sob a sombra da doença e pela constatação de que, apesar das sabotagens de Jair Bolsonaro, quase 70% da população está com, ao menos, duas doses da vacina.

Também há o entendimento de que a variante ômicron mata proporcionalmente menos infectados que suas predecessoras. E aí reside o perigo. Em quem está triplamente vacinado, ela deve provocar um quadro mais suave na maioria dos casos. Mas como ela contamina muito mais (chegamos, nesta quarta, a 219.878 infecções registradas em 24 horas, um novo recorde claramente subdimensionado pela falta de testagem), mesmo que a taxa de fatalidade seja menor, ela acaba também produzindo muitos óbitos.

Há nas redes sociais e grupos de aplicativos de mensagens uma discussão que usa a taxa menor de conversão de doentes em mortos para justificar que podemos relaxar. Mas tente explicar para uma família que perdeu um ente querido que a sua morte foi uma irrelevante estatisticamente falando.

Ao menos sete estados estão com uma taxa de ocupação de mais de 80% dos leitos de UTI pediátricos para tratamento de crianças de covid-19. Isso é consequência direta do comportamento criminoso adotado por Bolsonaro e por seu ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que retardaram o início da vacinação infantil para agradar o naco negacionista dos fãs do presidente em ano eleitoral.

E há a questão dos não-vacinados. Parte deles deixou-se levar pela desinformação provocada pelos negacionistas e tomou apenas a primeira dose do imunizante, o que não garante proteção. Parte deles tem se mostrado inimputável mediante a insanidade do que defende e, portanto, também deveria provocar compaixão. Como diria o Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículo 34: Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem.

(Outra parte são antivax apenas no discurso, com objetivos políticos. Muitos acabam se imunizando e defendendo que os outros fujam da vacina e tomem cloroquina, como o presidente da República. Ou alguém tem dúvida que ele se vacinou, apesar de dizer que não? Tanto que decretou sigilo sobre sua carteira de vacinação.)

Do total de internados por covid-19 em UTIs do Distrito Federal, 90% não receberam nenhuma dose de vacina. E um levantamento da Secretaria de Saúde de Minas Gerais apontou que o risco de morte dos não imunizados é 11 vezes maior do que quem recebeu duas doses. No Rio, 88% dos internados são pacientes que não completaram o esquema vacinal. São vidas afetadas ou perdidas diante de nossa incapacidade como sociedade de frear o avanço da estupidez.

Uma médica que trabalha com pacientes de covid-19 no Hospital das Clínicas, principal centro de referência em São Paulo, contou-me, exausta, que a situação está caótica. Não há equipes para cuidar de tantos pacientes que chegam em situação muito ruim. A quantidade de intubados é menor do que em outros momentos de pico da pandemia, mas o volume de internados é tão grande que eles não estão conseguindo dar conta do atendimento.

Ao mesmo tempo, segundo ela, a alta taxa de contaminação de profissionais de saúde reduz ainda mais a quantidade de braços para a tarefa. E os efeitos disso já se fazem sentir, como aconteceu antes, no atendimento aos estão com outros problemas de saúde, condições escanteadas pela covid-19.

O objetivo aqui não é soar as trombetas do apocalipse. A expectativa é de que esta onda passe mais rapidamente que as outras duas, mas vai deixar seus mortos. A vacinação e o uso de máscaras garantem proteção, mas precisam ser levadas a sério para que possamos manter um cotidiano minimamente normal.

Nunca foi tão importante campanhas voltadas aos pais para levarem seus filhos e suas filhas para se imunizarem. Nunca foi tão relevante conversar com pessoas desinformadas para explicar a elas que foram enganadas e que precisam ir tomar suas doses. Nunca foi tão imprescindível explicar que a vacina não impede que você fique doente, mas reduz os sintomas e a chance de que você morra.

Um dos legados do pouco apreço que Jair Lamento-Mas-A-Morte-É-O-Destino-De-Todo-Mundo Bolsonaro demonstrou à vida humana é um país mais embrutecido e indiferente à vida. Neste momento em que caminhamos para a barreira simbólica de mil óbitos por dia, precisamos mostrar ao presidente que toda a estupidez que ele plantou não vai gerar frutos.