PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uso de grana de pobre para trator reforça Bolsonaro como presidente de rico

20.mai.21 - Bolsonaro passeia de trator por ponte estaiada que liga Santa Filomena (PI) a Alto Parnaíba (MA) - Isac Nóbrega / Planalto
20.mai.21 - Bolsonaro passeia de trator por ponte estaiada que liga Santa Filomena (PI) a Alto Parnaíba (MA) Imagem: Isac Nóbrega / Planalto
só para assinantes
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

30/05/2022 11h25

A imagem de Jair Bolsonaro como um presidente que não cuida de gente pobre foi reforçada com a representação do Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU). O seu governo comprou quase R$ 90 milhões em tratores, com objetivos claramente eleitoreiros, usando recursos que deveriam ter sido gastos para prevenir o sofrimento dos mais necessitados na pandemia.

Não à toa a pesquisa FSB/BTG, divulgada nesta segunda (30), aponta Lula com 65% das intenções de voto no primeiro turno entre quem ganha até um salário mínimo, enquanto Bolsonaro tem 17%. No total nacional, o resultado é 46% a 32%.

De um a dois salários por mês, Lula tem 54%, Bolsonaro, 25%. Entre dois e cinco, há um empate técnico, com Lula apontando 37% e Bolsonaro, 38%. E, entre quem ganha mais de cinco salários por mês, Bolsonaro tem 45% e Lula, 33%. A margem de erro é de dois pontos.

O MP pediu a suspensão de pagamentos pelos tratores enquanto o caso não for esclarecido. Reportagem da Folha de S.Paulo, do último dia 23, revelou que ao comprar os equipamentos agrícolas o governo solenemente ignorou determinação do TCU de que os recursos fossem usados no combate à pandemia dos mais pobres.

A gestão Bolsonaro vai tentar passar um caô ao tribunal, mentindo que era necessário investir em pequenos agricultores para reduzir a fome que surgiu com o "fique em casa" na pandemia, ou seja, com a proteção da vida. Mas a compra ignora as demandas reais dessas famílias, que são diferentes a depender das características de cada região e atividade produtiva.

O Brasil caminha para 670 mil mortes por covid-19. No ápice da segunda onda de coronavírus, em abril do ano passado, quando mais de 4 mil óbitos eram registrados por dia pela doença, Jair repetia que lamentava aquilo, mas empurrava os trabalhadores para a rua afirmando que "a morte é o destino de todos".

A própria reportagem da Folha apontou que há 45 mil famílias que vivem no campo na extrema pobreza aguardando recursos para o fomento rural. Se quisesse matar a fome desse povo, há soluções mais rápidas que poderiam ser adotadas, mas que não rendem tanto voto.

Já um tratorzão vistoso estacionado na prefeitura com o adesivo do governo federal pode ajudar na eleição do presidente e de candidatos apoiados por ele. A Bahia, estado do ex-ministro da Cidadania, João Roma, corresponsável pelas transações e pré-candidato ao governo estadual, é o principal destino da tratorada.

Como já disse aqui, em materiais de campanha Jair aparece como "pai dos pobres", lembrando ao povo que ele foi o responsável pelo pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 no primeiro ano da pandemia. Mas, se dependesse do governo, inicialmente, nem haveria auxílio. Depois, com muita pressão, o ministro Paulo Guedes sugeriu R$ 200. O mérito por forçar uma subida de valor coube ao Congresso.

A intenção de voto de Jair Bolsonaro subiu de 18% para 25% entre quem recebe Auxílio Brasil, entre abril e maio, segundo a pesquisa FSB/BTG, mas Lula permaneceu com 50% nesse grupo. Entre os que moram com alguém que ganha o benefício, Bolsonaro apenas oscilou de 28% para 29%, enquanto Lula cresceu de 47% para 59%.

Por enquanto, a lembrança de bonança dos anos Lula tem se feito mais presente na vida dos mais pobres do que o impacto do pagamento de um Auxílio Brasil (o sucessor do Bolsa Família) - que, aliás, vem perdendo mês a mês poder de compra por conta da escalada da inflação.

Para 85% dos eleitores, os preços aumentaram muito nos últimos três meses, outros 10% afirmam que aumentaram um pouco, segundo a pesquisa FSB. E, para 70%, eles devem continuar aumentando nos próximos três meses.

Isso também ajuda a explicar a razão de, segundo dados do Datafolha divulgados na sexta (27), 20% dos eleitores de Jair Bolsonaro optarem por Lula caso não votem no atual presidente na eleição de outubro.

Há um eleitor pobre movido por uma urgência material, que lembra como era o governo Lula no passado e reativa a sua memória, mesmo com todo o ruído causado pela Lava Jato. Recorda-se que comia carne e pagava contas. Mas também que ficava vivo, coisa que a prioridade deste governo por cloroquina ao invés de vacina e por trator ao invés da saúde do trabalhador deixa bem claro.