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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Antibolsonarismo em SP leva Tarcísio a provar que não é uma costela de Jair

Alan Santos/PR
Imagem: Alan Santos/PR
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/07/2022 09h41

Conhecido como o "candidato do Bolsonaro", o então ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos) era praticamente um desconhecido em São Paulo quando foi ungido pelo presidente para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes com a promessa de que herdaria votos do padrinho. O problema é que a mesma mão que dá também é a que tira devido à alta rejeição.

Isso obriga a Tarcísio escolher quando e como mostrar e esconder Jair.

A transferência de popularidade levou o carioca Tarcísio a empatar com o governador Rodrigo Garcia (PSDB) em segundo lugar no Datafolha na disputa para o Palácio dos Bandeirantes, com 13%, no cenário sem Márcio França (PSB). O ex-prefeito Fernando Haddad (PT), candidato de Lula, aparece em primeiro, com 34%.

A tendência é que, na medida que se tornar mais conhecido, o ex-ministro da Infraestrutura cresça acompanhando a votação de Bolsonaro no estado. Seu cenário dos sonhos seria reeditar por aqui a disputa polarizada travada em nível federal, ou seja, agregando o antipetismo em torno de si.

Mas a atual reprovação do governo Bolsonaro torna o antibolsonarismo um forte adversário em São Paulo. O Datafolha aponta que 64% dos paulistas não votam em um nome indicado pelo presidente de jeito nenhum, enquanto 51% não escolhem alguém sugerido por Lula nem que a vaca tussa.

As taxas negativas do ex-governador João Doria (PSDB) eram comparáveis às de Bolsonaro, mas para a sorte de Garcia, ele desistiu da corrida eleitoral e, por enquanto, voltou à suas atividades empresariais.

Ou seja, Tarcísio precisa colar em Bolsonaro para crescer, mas garantir que a rejeição do padrinho não cole nele antes que alcance patamar suficiente para passar ao segundo turno.

Isso impõe ao candidato um esforço de exposição seletiva. Em comícios e motociatas destinados ao público paulista que é seguidor do presidente ou nos espaços empresariais que aplaudem Jair de pé, Tarcísio tem aparecido como sombra de Bolsonaro.

Em outros eventos e reuniões, por outro lado, tenta mostrar que não é uma costela retirada do padrinho político, mas tem vida própria. Isso inclui evitar que o entorno ultraconservador do presidente, que é forte em São Paulo, apareça à luz do dia fazendo campanha pelo candidato.

Essa modulação política tem gerado alguns embates. Tarcísio recebeu muitas críticas por ter José Luiz Datena, então candidato ao Senado, em sua chapa, Bolsonaristas-raiz, que querem o ex-ministro Ricardo Salles (PL), a deputada estadual Janaína Paschoal (PRTB) ou a deputada federal Carla Zambelli (PL), ficaram irritadíssimos, atacando sistematicamente Datena. O apresentador abandonou a disputa nesta quinta (30).

O esforço de Tarcísio não é um esforço fácil porque, em São Paulo, há décadas como um "Tucanistão", o voto "nem Lula, nem Bolsonaro" tem mais tração do que em outros lugares. O governador Rodrigo Garcia e as dezenas de bilhões de reais que ele tem nos cofres paulistas para gastar em obras e repasses a prefeitos contam com isso, aliás.

Haddad terá pela frente o antipetismo, muito forte no interior, apesar de ser considerado por muitos como um "petista light". Por outro lado, tem o recall de ter sido prefeito da capital e candidato derrotado na eleição presidencial de 2018. E a sua rejeição (35%), apesar de ser a mais alta entre todos os pré-candidatos, é relativamente baixa para um candidato conhecido pela maioria dos entrevistados.

Tarcísio tem 16% de rejeição, a mesma de Garcia, mas é bem menos conhecido que Haddad. O que significa que sua relação com Bolsonaro também ainda é menos conhecida, para bem e para mal.

Haddad colado a Lula, líder nas pesquisas nacionais, não tem a mesma preocupação de Tarcísio de precisar mostrar que é algo diferente de seu padrinho, pelo contrário. O que também faz com que, muito provavelmente, o destino de ambos esteja diretamente ligado.

Já o "candidato de Bolsonaro" quer evitar que isso aconteça, garantindo que mesmo que a eleição presidencial se decida no primeiro turno a favor de Lula, ele mantenha suas chances por aqui, tentando ser o nome do antipetismo num provável segundo turno paulista.