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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro trará acusado de assédio sexual de volta se ganhar a eleição?

Presidente Jair Bolsonaro ao lado do então presidente da Caixa, Pedro Guimarães - Isac Nóbrega/PR
Presidente Jair Bolsonaro ao lado do então presidente da Caixa, Pedro Guimarães Imagem: Isac Nóbrega/PR
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/07/2022 02h21

Após seis dias de silêncio sobre as acusações de assédio sexual a funcionárias da Caixa por parte do então presidente do banco, Pedro Guimarães, Jair Bolsonaro finalmente tocou no assunto nesta segunda (4). Questionado sobre as denúncias por seus apoiadores, disse: "Foi afastado o presidente da Caixa, tá respondido? Ou melhor, ele pediu afastamento, tá?"

O termo "afastamento" é de natureza temporária, como a duração do aumento no valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 - ação eleitoreira que vai só até o final do ano. A preferência por "afastamento" ao invés de "demissão" (que é o que de fato aconteceu) indica que, em um segundo mandato de Bolsonaro, Pedro pode voltar.

Não seria novidade, pois o presidente tem histórico de colocar assessores no freezer depois de escândalos e, depois, descongelá-los quando a opinião pública se entretém com outra coisa.

Foi assim com José Vicente Santini, exonerado após pegar mal para o governo a viagem que fez da Europa à Índia usando um avião da FAB. Depois de um tempo, voltou a ocupar um cargo no Palácio do Planalto e, agora, está como assessor especial, na vaga deixada pelo general Braga Netto.

Figurinha fácil nas lives presidenciais, o então presidente da Caixa era carregado por Jair a todos os cantos, para que ele falasse de benefícios sociais, porte de armas ou simplesmente o elogiasse. Um assessor tão próximo, que chegou a ser cotado para substituir o ministro da Economia Paulo Guedes ou mesmo ser vice na chapa à reeleição.

O ideal para um presidente que tenta a reeleição, mas é rejeitado por 60% das mulheres seria aparecer dando uma resposta dura sobre um caso que envolve violência de gênero como esse, demitindo o subordinado para mostrar que pressão por sexo, apalpadas em nádegas e seios e propostas de sexo coletivo não são coisas toleradas em sua gestão.

Mas Bolsonaro preferiu proteger Pedro Guimarães. Primeiro, gritando solidariedade a ele através de seu silêncio. E, agora, reforçando a narrativa de que o ex-assessor quis sair, sem discutir o mérito por trás da saída.

Esse discurso de que não afastou ninguém também funciona bem para seu público fiel, que o ajudará a tentar um golpe de Estado caso perca a eleição, uma vez que os seguidores mais radicais de Jair defenderam que o presidente não deveria deixar que um bolsonarista-raiz como Pedro saísse do governo sob pressão, ainda mais pressão de mulheres que denunciaram assédio sexual.

Se Bolsonaro conseguir a reeleição, Pedro Guimarães pode até não voltar como chefe da Caixa, dado o tamanho do escárnio e a investigação em curso pelo Ministério Público Federal. Mas como o presidente o considerava um servidor exemplar, ele pode reaparecer em outra função de confiança. Ministro talvez.