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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No Reino Unido, governo cai após escândalo sexual de assessor. No Brasil...

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/07/2022 09h23

Boris Johnson perdeu a capacidade de governar o Reino Unido, sendo defenestrado da liderança do Partido Conservador e do posto de primeiro-ministro, após esconder que sabia das acusações de má conduta sexual de um assessor. O deputado Chris Pincher renunciou após vir a público relatos de que apalpou dois homens em um clube de Londres.

Por aqui, um assessor próximo do presidente da República, no caso, o então presidente da Caixa Econômica Federal, acusado de apalpar nádegas e seios de funcionárias, pede demissão após o caso vir a público. O presidente faz silêncio em solidariedade, o governo não responde se sabia das acusações e fica por isso mesmo.

No caso britânico, a situação ficou feia para Johnson por ele ter, inicialmente, negado, que sabia dos relatos envolvendo o conservador Pincher antes de indicá-lo para um cargo importante em sua gestão. Quando surgiram denúncias de que ele foi sim informado pessoalmente, o governo voltou atrás, mas disse simplesmente que tinha esquecido disso - um novo nome para mentira. Pediu desculpas, mas já era tarde. Renunciou.

Essa foi a cereja do bolo de uma série de escândalos do seu governo, incluindo a realização de uma festa enquanto o país estava em lockdown, negacionismo sanitário e incompetência da gestão na pandemia de covid-19, denúncias de lobby de empresas e corrupção entre funcionários, falta de ações para combater o aumento da inflação, entre outras.

Percebam a similaridade dos escândalos de Boris Johnson, eleito com um discurso de outsider da política e antissistema, com os escândalos de Jair Bolsonaro, eleito com um discurso de outsider da política e antissistema. A diferença é que se o inglês tivesse feito o tamanho das bizarrices que o brasileiro fez, ou contado mentiras do mesmo porte, teria sido chutado para fora há muito mais tempo do número 10 da Downing Street.

Imaginem Johnson chamando o choro de familiares pelos seus mortos na pandemia de "mimimi", dizendo que "todo mundo morre um dia" e lutando firmemente contra a vacinação, dizendo que vacina transforma pessoas em jacarés? Imaginem ele fazendo insinuações mentirosas de cunho sexual para uma jornalista investigativa da BBC?

Os relatos de cinco funcionárias da Caixa de que o então presidente da instituição, Pedro Guimarães, as apalpava, pressionava por sexo e propunha surubas levaram a uma investigação por parte do Ministério Público Federal.

A imprensa apurou que as denúncias contra Guimarães teriam chegado ao Palácio do Planalto. Mas, se a cúpula do governo sabia, não fez nada para impedir a ação de um predador sexual em uma das principais instituições públicas brasileiras. Se não fosse a coragem das trabalhadoras e a reportagem do portal Metrópoles, ele teria continuado lá, livre para apalpar.

Guimarães era mais do que o chefe de um órgão público, era assessor direto de Jair Bolsonaro, que o carregava a todos os lugares para fazer propaganda do auxílio emergencial e do Auxílio Brasil, defender o porte de armas ou elogiar seu governo. Era tão próximo que chegou a ser cotado para substituir o ministro da Economia Paulo Guedes ou mesmo ser vice na chapa à reeleição.

Após seis dias de silêncio sobre as acusações de assédio sexual, Jair Bolsonaro tocou no assunto nesta segunda (4). Questionado sobre as denúncias por seus apoiadores, disse apenas: "Foi afastado o presidente da Caixa, tá respondido? Ou melhor, ele pediu afastamento, tá?"

O termo "afastamento" é de natureza temporária, como a duração do aumento eleitoreiro no valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600. A preferência por "afastamento" ao invés de "demissão" indica que, em um segundo mandato de Bolsonaro, Pedro pode voltar.

Faz-se necessária uma investigação para saber se Bolsonaro sabia das denúncias de assédio sexual contra o seu amigo e não fez nada, o que seria acobertamento, mas não novidade. Evidências indicam que ele interferiu no trabalho da Polícia Federal que investiga a corrupção no Ministério da Educação, avisando o ex-ministro Milton Ribeiro de que ocorreria uma operação contra ele.

O silêncio do presidente, sinal de compadrio e solidariedade com o agressor, diz muito. Não só do que ele acha das vítimas que denunciaram, mas também do que ele pensa da democracia brasileira.