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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Agressão a Fernando Holiday teve até microfone desligado com mordida

Fernando Holiday, pré-candidato a deputado federal pelo partido Novo - Reprodução
Fernando Holiday, pré-candidato a deputado federal pelo partido Novo Imagem: Reprodução
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

01/07/2022 04h00

A virulência e estridência do bolsonarismo e do próprio presidente da República têm feito com que passe despercebido o crescimento de uma mentalidade violenta na esquerda brasileira.

Crente que luta contra a "encarnação do mal", o atual presidente da República, a esquerda tem sido leniente com facções que pregam a violência física contra liberais. Já há diversos expoentes da modalidade, que começam a ficar famosos nas redes sociais e ganham até espaço para lançar candidaturas.

É grave o ocorrido na Unicamp com três pré-candidatos do Partido Novo ao legislativo. O relato detalhado está na reportagem de Sara Baptista no UOL, que explicita a necessidade de ter atenção com a temperatura dos debates eleitorais.

O vereador Fernando Holiday não faz mais parte do ruidoso MBL, que ganhou e ganha muita projeção com vídeos de confrontos políticos. É pré-candidato a deputado federal e estava acompanhado de dois colegas do Partido Novo em um evento da União Juventude e Liberdade, UJL, núcleo de estudantes liberais da Unicamp.

A discussão sobre cotas e financiamento de universidades públicas não foi nem iniciada. Alunos militantes de esquerda, a maioria ligada à União da Juventude Comunista, associada ao PCB, interromperam o evento com tambores, palavras de ordem e, infelizmente, agressões físicas.

"Cercaram a gente e começaram a dar vários chutes. Eu levei vários chutes na perna, os outros pré-candidatos levaram chutes nas costelas, empurrões no ombro. Pessoas dizendo que a gente não iria falar, nos chamaram de fascistas, disseram que com fascistas não se discute", me relatou Fernando Holiday.

A situação prosseguiu numa tentativa de negociação para que todos dialogassem. Mas a tese dos manifestantes é que não se discute com fascistas, palavra que ganha um significado muito mais amplo que sua conotação original.

Quem frequenta as redes sociais já sabe que "fascista" é qualquer um que não elogiar o Lula acima de todas as coisas ou fizer qualquer questionamento a personalidades que dizem combater o bolsonarismo.

O que aparece nos vídeos compartilhados em redes sociais pelos pré-candidatos é o tumulto após o encerramento forçado do evento.

"Até que arrancaram o microfone da nossa mão. E, acho que esse é talvez o momento mais simbólico da coisa toda, que a menina pegou com os dentes e cortou o fio do microfone e arrancou o microfone. Aí não ia ter realmente como ter evento.", relata o vereador e pré-candidato do Novo.

Muitas pessoas que se autointitulam "democratas" e nem têm nada a ver com o grupo agressor utilizaram as redes sociais para justificar a ação. Alegam que ações passadas de Holiday no MBL seriam a causa da agressão.

É preocupante o tipo de justificativa moral que o DCE da Unicamp e a UJC utilizaram para defender a agressão física. Para eles, esta é a forma correta de enfrentamento político de "fascistas" ou "neoliberais".

As estrelas da internet desse movimento defendem o slogan "liberal tem de viver com medo". Pregam abertamente que violência física, a base da antipolítica, é um mecanismo de enfrentamento político. Contam com muitos seguidores fiéis principalmente entre jovens da classe média alta urbana, entre eles até jornalistas.

Extremismo não combate extremismo, multiplica. Poderíamos ter aprendido isso com o bolsonarismo, mas aparentemente somos uma sociedade que prefere o fígado ao cérebro.

A ditadura sai do brasileiro mas o brasileiro não sai da ditadura. São notáveis as tentativas de contorcionismo intelectual para justificar violência física como forma de exercício político. Aliás, podemos utilizar uma infinidade de adjetivos para elas, exceto democráticas.