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Maria Carolina Trevisan

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Para 70% dos brasileiros, assédio sexual na Igreja Católica segue ocorrendo

Antiga sede do Mosteiro Santíssima Trindade, em Monte Sião (MG) - Reprodução
Antiga sede do Mosteiro Santíssima Trindade, em Monte Sião (MG) Imagem: Reprodução
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

04/10/2021 04h00

Maria Carolina Trevisan e José Dacau, colunista do UOL e UOL

O fato de tornar público casos de assédio sexual envolvendo membros do clero católico faz com que o Vaticano tenha que se adequar para conter um problema sistêmico da Igreja Católica e estimula a Justiça a tomar atitudes para responsabilizar os atores das agressões. Quanto mais conhecimento sobre essa questão, menos chance de que outras situações semelhantes ocorram.

É um distúrbio real: uma a cada seis pessoas conhece alguém que foi vítima de violência sexual cometida por um líder religioso. Para 70% dos brasileiros, o assédio sexual na Igreja Católica continua acontecendo. É o que mostra uma pesquisa inédita do Instituto IDEIA, que entrevistou 1.248 homens e mulheres maiores de 16 anos, residentes no Brasil, sobre assédio sexual cometido por membros de igrejas.

Em reportagem publicada na última quinta (30), o UOL revelou que o padre Ernani Maia dos Reis, líder do mosteiro Santíssima Trindade, localizado em Monte Sião (MG), é acusado de assediar e violentar sexualmente oito monges, durante os anos de 2011 e 2018. Ele nega a acusação.

Um dia depois de os casos serem revelados pela reportagem, o Ministério Público de Minas Gerais pediu à Polícia Civil a abertura de um inquérito e o Papa Francisco anunciou a dispensa do ex-padre do estado clerical após investigação interna.

A apuração do núcleo investigativo também resultou no documentário "Nosso Pai", lançado pelo MOV, selo de produções audiovisuais do UOL.

No Brasil, 50% das pessoas entrevistadas pelo Instituto IDEIA afirmaram que estão pouco informadas sobre esse tipo de violação. Informação é fundamental para enfrentar o problema.

Nos Estados Unidos, onde ocorreu, em 2002, a investigação do jornal The Boston Globe sobre abuso sexual cometido por padres católicos e deu origem ao filme "Spotlight - Segredos Revelados", que ganhou um Oscar e teve projeção mundial. Lá, a percepção é inversa: 58% dos entrevistados disse que têm muito conhecimento acerca dessa questão, segundo a pesquisa do Pew Research Center, de 2019.

Foi a publicação das reportagens investigativas que fez com que a justiça americana se envolvesse e exigisse indenização às vítimas por parte da Igreja Católica, além do acesso aos processos canônicos. Essa se tornou uma jurisprudência que conseguiu ter um certo grau de impacto, especialmente nas finanças das arquidioceses. Mesmo assim, em 2018, o jornal The New York Times revelou o caso do ex-cardeal e ex-arcebispo de Washington Theodore McCarrick, que praticou assédio sexual contra adultos e um adolescente décadas atrás sem que nada acontecesse. Outras autoridades da Igreja Católica sabiam do que ocorreu e se omitiram.

No Brasil, o silêncio é o comportamento que predomina: 60% dos entrevistados disseram que, ao saber desses abusos, continuaram frequentando normalmente as suas instituições religiosas. Apenas 30% afirmaram que denunciaram o caso à polícia ou à justiça. Não temos a mesma cultura para esse tipo de denúncia. Culpa-se a vítima. Há ainda a vergonha, o medo e a falta de um sistema que facilite a denúncia e a investigação, acolha essas vítimas e as proteja.

Assista o documentário "Nosso pai":