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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

JP News produz barulho e gera engajamento com debates provocados e gritos

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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

29/10/2021 12h00

Na disputa por atenção hoje no mercado de televisão, o sonho maior de quem produz é conseguir que algum trechinho de 30 a 60 segundos da programação viralize nas redes sociais. Isso vale tanto para a TV aberta quanto a paga.

No concorrido segmento dos canais de notícias 24 horas, uma das maneiras mais fáceis e eficientes de chamar a atenção é produzindo artificialmente polêmica. Como se faz isso? O programa "O Grande Debate", lançado logo na estreia da CNN Brasil, ensinou: colocando dois antagonistas, com opiniões extremas, para discutir qualquer assunto.

Rapidamente ficou claro que não havia qualquer intenção em esclarecer divergências, mas apenas entreter o espectador com as afirmações retumbantes e as indiretas trocadas pelos dois lados, um mais à direita e outro mais à esquerda. O quadro consagrou de imediato dois comentaristas, Gabriela Priolli e Caio Coppolla.

O elenco (sim, elenco) foi trocado diversas vezes entre março e dezembro de 2020, quando a CNN suspendeu a exibição. Ao retomá-lo, em junho deste ano, passou a contar com debatedores diferentes a cada programa e perdeu um pouco o caráter farsesco do início.

A estreia no canal JP News esta semana recolocou em cena a ambição de produzir barulho e divertimento com debates de araque. Sem o verniz da CNN Brasil, o novo canal radicaliza a proposta ao promover discussões num espectro ainda mais limitado do campo político, entre o centro e a direita, opondo bolsonaristas declarados a figuras com visão crítica sobre o governo.

Uma cena provocada pelo comentarista José Carlos Bernardi ilustra bem a situação. Dirigindo-se à colega Amanda Klein, após um comentário dela sobre Roberto Jefferson, ele disse gratuitamente: "Você me chama de bolsonarista, então tenho a liberdade de lhe chamar de lulista". Amanda ainda observou: "Mas nós nem tocamos no nome dele". Levando Bernardi a dizer: "Inclusive você tá vestida a rigor. Deve ter pego esse modelito aí com a Dilma, esse modelito vermelho que você tá usando hoje".

Óbvio que o vídeo com o trecho deste "debate" viralizou.

A mesma coisa ocorreu num "debate" entre Adrilles Jorge e Fabio Piperno sobre "terceira via". A discussão esquentou, os dois começaram a falar ao mesmo tempo, o ex-BBB se irritou e elevou o tom de voz, levando o apresentador William Travassos a encerrar o programa enquanto eles ainda falavam.

O vídeo com o trecho deste "debate" também viralizou, claro.

Um terceiro momento de ótima promoção para o JP News ocorreu na quarta-feira (27), dia da estreia. Foi ao final da segunda entrevista que o presidente Jair Bolsonaro deu ao canal naquele dia. Irritado com uma provocação do comediante André Marinho sobre "rachadinha", o presidente optou por se levantar e ir embora, encerrando abruptamente o encontro.

Esse vídeo, claro, também viralizou muito. Mas a confusão não terminou aí. E gerou mais um vídeo.

Marinho observou que o presidente "só quer pergunta de bajulador", sem citar o nome de ninguém. Adrilles Jorge, porém, indignou-se e começou a gritar. "Me respeita, ó, rapaz. Bajulador é teu pai, que bajulava o presidente e se transformou em oposição porque não recebeu ministério. Dá um carguinho pro seu pai que você vira bajulador. Me respeita, vagabundo. Mauricinho! Mauricinho! Safado!"

Com quatro "virais" em dois dias, a JP News pode dizer que estreou com o pé direito.