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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rachadinhas: Fabrício Queiroz elege o SBT como seu porta-voz na mídia

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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

25/11/2021 06h01

Apontado como protagonista de uma investigação de grande interesse, o chamado escândalo das rachadinhas no gabinete do então deputado estadual Flavio Bolsonaro, Fabrício Queiroz é um homem avesso à exposição pública.

Desde que o caso foi revelado, há mais de três anos, ele deu apenas duas entrevistas, ambas para a repórter Debora Bergamasco, do SBT. A primeira foi em 26 de dezembro de 2018 e a segunda em 23 de novembro de 2021.

Na primeira, com mais de 22 minutos de duração, Queiroz foi indagado pela jornalista a respeito de muitas questões levantadas pelas investigações sobre as suas movimentações financeiras atípicas. Disse que parte do R$ 1,2 milhão que movimentou veio de negócios com compra e venda de carros.

Falou sobre os depósitos que fez na conta de Michelle Bolsonaro, mulher do então presidente eleito, Jair Bolsonaro, e sobre o fato de ter faltado a quatro convocações do Ministério Público para prestar esclarecimentos. Também falou detidamente sobre os problemas de saúde que estava enfrentando, incluindo um câncer, que seria objeto de cirurgia.

Numa reportagem especial e no podcast "A vida secreta de Jair", a jornalista Juliana Dal Piva detalha o caso e traz vários fatos inéditos sobre o esquema das rachadinhas.

Queiroz tinha consciência que aquela entrevista ao SBT era única e seria reproduzida por todos os veículos de mídia. Isso ficou claro quando, justificando que faltou a convocações do MP por estar se submetendo a tratamento médico, ele disse: "No terceiro depoimento, eu estava sendo atendido, tenho aí em mãos, faço questão de entregar para você ler, tirar uma foto e mostrar para a imprensa do Brasil, eu sendo atendido por um dos melhores médicos..."

O interesse em ouvir Queiroz era tanto que Bergamasco, então apresentadora do programa de entrevistas "Poder em Foco", achou por bem perguntar: "Por que o senhor decidiu receber a gente do SBT?" E exibiu a resposta: "Não sou foragido, acompanho o teu programa, sei da tua lisura e (você) me deixou falar. Me deixou falar. O que eles (jornalistas) queriam é me pegar na esquina, perguntar coisas, distorcer as coisas, para atingir outro alvo. Eu não sou ninguém."

Quase três anos depois, esta segunda entrevista à emissora de Silvio Santos causou algum estranhamento. Nem tanto pelas declarações. Mas por que ouvir Queiroz hoje? Não parecia haver motivo. A conversa transmite a impressão de que o ex-assessor de Flavio Bolsonaro desejava dizer algumas coisas, transmitir alguns recados, mas não fica muito claro quais seriam.

Ele se recusa a falar sobre o processo que o acusa de ser operador do esquema de rachadinha. Afirma apenas que "isso nunca existiu". E diz: "Eu vou me manter neste momento da entrevista calado por orientação do meu advogado por o processo correr em segredo de Justiça". Esta fala, curiosamente, foi gravada antes ou depois da entrevista e exibe a repórter e o entrevistado de pé, frente à frente. "O senhor não pode falar nada sobre o processo?", pergunta ela. "Eu sigo as orientações do meu advogado", responde.

Bergamasco desta vez não perguntou por que Queiroz escolheu o SBT, mas começa a conversa agradecendo: "Queiroz, muito obrigada por esta entrevista". E ele responde, da mesma forma que fez em 2018, transmitindo a impressão de que a entrevista é única, que ele não falará com mais ninguém: "Primeiramente, Debora, eu que te agradeço por ter me dado a oportunidade, três anos atrás, e hoje aqui me dando essa oportunidade de falar pra todo o Brasil a ilegalidade, a fraude processual que foi a minha prisão".

"Por que o senhor se escondeu?" A boa pergunta pareceu surpreender o entrevistado, que respondeu de forma indignada: "Eu me escondi aonde? Nunca estive escondido! O que você está falando?" Bergamasco, aparentemente, se assustou com a resposta e gaguejou, formulando mal a réplica: "Não, porque... Por exemplo, quando o senhor foi preso, o senhor foi encontrado em Atibaia no escritório de advocacia do presidente da República, do senador Flavio Bolsonaro, o escritório do Frederick Wassef. O que o senhor estava fazendo lá?"

Como se tivesse se lembrado de algo, Queiroz fala então: "Ah, faço questão de explicar isso a você, Debora." E responde, então, longamente sobre como foi acolhido pelo advogado do presidente, dizendo que foi uma maneira de protegê-lo contra ameaças de morte com o objetivo de incriminar Bolsonaro.

Em diferentes momentos, Queiroz se refere ao advogado como "doutor Wassef" ou "o advogado do presidente". Perto do final, quando a jornalista do SBT pergunta se Wassef é o "anjo"" a quem ele se refere em gravações interceptadas, Queiroz diz: "Nunca. Nunca eu vi o Fred. Só por televisão". É um momento em que caberia uma réplica simples e bem-humorada. "Fred?"

A entrevista foi exibida de forma resumida no telejornal "SBT Brasil", em quatro minutos, e numa versão estendida, de 12 minutos, no site SBT News.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL