PUBLICIDADE
Topo

Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro imola o "pária" e faz de conta que governa com aliados

4.mai.2020 - O cancheler basileiro, Ernesto Araujo, e o presidente Jair Bolsonaro - Ueslei Marcelino/Reuters
4.mai.2020 - O cancheler basileiro, Ernesto Araujo, e o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

29/03/2021 15h43Atualizada em 29/03/2021 15h49

O capitão não merece confiança. Mas tem a determinação dos idiotas.

No horizonte dele está o poder. De onde não quer apear. Vai entregar homeopaticamente a cabeça de quem precisar entregar, em gestos racionados, para acalmar os novos-amigos no Congresso Nacional.

Fez de conta que convidou uma médica para o Ministério da Saúde. Levou-a à Brasília para conversar num convescote que era uma armadilha e que servia para enrolar o Lira, presidente da Câmara. E trouxe para o lugar um médico-político que posa ao lado do Zé Gotinha, depois que o Lula perguntou para onde tinha ido o símbolo das campanhas de vacinação.

Fez de conta que tem interesse na gestão coordenada da pandemia e na existência de um Comitê com essa função. Não chamou o Fórum dos governadores e arranjou um serviço para o Presidente do Senado, - conversar com os governadores. Assim, a culpa, se falhar a comunicação com os estados, não é problema dele.

O capitão está em campanha e quer manter tremulando a sua bandeira contra a corrupção. Tudo gira em torno da sobrevivência do discurso em que "eles" - os corruptos - estão "contra nós", os defensores da Pátria "acima de tudo", revivendo o slogan nazista e copiado por Trump.

O sadio general-almoxarife saiu espanando e esperneando, e sem dar nomes e nem fatos, bradou que saiu porque contrariou interesses de políticos por "pixulés" no seu Ministério.

O chanceler-entupidor de canais diplomáticos igualmente puxou o jargão numa fala ambivalente em que põe dúvidas sobre práticas republicanas de uma senadora. É o mesmo tom do discurso anticorrupção - a bandeira do negacionista mor.

Onde estão os corruptos? A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tomou uma decisão inédita há duas semanas: criar um grupo permanente de monitoramento sobre as ações ligadas ao combate à corrupção. Uma excelente oportunidade para que o general-almoxarife e o entupidor apresentem os fatos que ambiguamente mencionam, apenas para confundir.

O defenestrado chanceler, que envergonha a tradição do Itamaraty, também trouxe outro simbolismo para o governo do capitão. Ele deu uma aula de latim aos senadores, traduzindo sigla, âncora do seu discurso, que identifica supremacistas brancos. Fez isso na mesma sessão em que o assessor do capitão mostrou seus dedinhos em gesto obsceno, igualmente identificados com eles, supremacistas.

Quem fala com quem? Quem fala em nome de quem? O general-servil deixou claro que "um manda e outro obedece".

Quem são os verdadeiros supremacistas? Quem é o supremacista?

O ex-deputado por 27 anos é o gerente de um pombal onde arrulham as aves que se saciam com as migalhas jogadas por ele. E que piam por ele. Que o milho lhe seja racionado.

Uma homenagem ao poeta Raimundo Correia, autor do poema "As pombas".

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E, à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Enquanto ruflam as asas nas suas mídias sociais e fazem falas obscuras nas acusações contra terceiros, as pombas vão-se do pombal. As pombas general-almoxarife e o pária do Itamaraty tentaram voo de águia, mas ficaram mesmo catando milho na Praça dos Três Poderes, viciadas em tapinha nas costas do capitão que as encanta.

Fiquemos na descrição da revoada de saída das pombas. Por enquanto, de olho e na esperança de que dezenas delas partam dos pombais. Que partam em revoada aquelas pombas que se engancham em postos do governo, para os quais não têm a mínima competência. Mas servem para fazer coro ao capitão.

E Correia antecipa a sanguínea madrugada. São elas agora diárias, e o céu se pinta com o sangue, com a dor pela morte de mais de 300 mil pessoas, deixando os sobreviventes contando apenas consigo próprios e com heroicos trabalhadores da saúde, para não serem abatidos pela pandemia.

E revela o poeta: as pombas têm vocação. A de voltar ao pombal. Quando o dia passa, aquelas pombas retornam, em bandos e revoadas. Essa é a ameaça que paira sobre o país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL