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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Descompensado, Bolsonaro vive inferno e quer companhia

07.jun.22 - Bolsonaro discursa no lançamento do Programa Brasil pela Vida e pela Família - Reprodução/TV Brasil
07.jun.22 - Bolsonaro discursa no lançamento do Programa Brasil pela Vida e pela Família Imagem: Reprodução/TV Brasil
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

08/06/2022 11h06Atualizada em 08/06/2022 11h08

O Brasil tem fome. O ex-capitão oferece perdigotos.

As falas que perdem a conexão com fatos são a marca do desvario. E revelam a tragédia de um homem perdido em si mesmo. Mas rodeado por acólitos.

O desaparecimento do indigenista Bruno Araújo e do jornalista inglês Dom Philips, mais a decisão do STF de manter a cassação de deputado bolsonarista, ativo na divulgação de desinformação - do mesmo calibre que o ex-capitão, ele próprio, reconheceu ter no seu repertório - levaram o candidato à reeleição a se descompensar.

Para quem não está familiarizado com o termo, geralmente utilizado para indicar estado emocional desequilibrado, manifesto por comportamento dissonante com a realidade objetiva - há uma reação desproporcional e incontrolável diante um evento - o que se viu ontem, na sede do governo federal, foi alguém prestes a exigir contenção física.

A realidade dói. E deve doer mais no ex-capitão quando olha para o desperdício de tempo dele, ocupando o cargo mais importante da gestão pública para experimentar o gozo permanente de férias e o uso abusivo de cartão corporativo - cujo extrato está em sigilo, para que os pagantes não conheçamos as suas despesas.

A Funai, quando soube do desparecimento de Bruno Araújo, correu para dizer que o funcionário estava em licença para atividades particulares, como se isso eximisse o órgão de responsabilidades e se pusesse em busca dele e do jornalista desaparecidos desde domingo

A estupidez de uma política que é feita de improviso, aos berros, sem lastro em análise e sem avaliação dos efeitos para reduzir a miséria e a fome - que agora, dizem as mais recentes notícias, está na mesa de 15% dos brasileiros e brasileiras. Não têm o que comer quando o ex-capitão se engasga com camarão e tentar urdir um golpe contra as instituições.

Já clama por um novo 7 de setembro, em que aqueles que "lotaram as ruas", em defesa do tal deputado Daniel Silveira, segundo o ex-capitão, atônitos e indignados com a condenação do desvario do parlamentar, iriam em protesto, novamente, xingar o STF (Supremo Tribunal Federal). E talvez conduzir novas "Marias-Fumaça", símbolo de mais uma vergonha nacional.

O ex-capitão fala que se "aventuraram" os dois homens desparecidos na Amazônia, que têm o histórico de defesa dos povos indígenas, vítimas, até onde se conhece, dos predadores que, iguais a cupins esfomeados, dilapidam a nossa biodiversidade e criam rotas para o narcotráfico na região, colocando também em risco a soberania nacional.

Aventureiros mesmo foram aqueles eleitores que, em 2018, crentes e ignorantes do que é a biografia de um defensor da tortura, misógino e incompetente - para não arrolar outros pontos altos da sua trajetória - votaram nele e agora e se escondem de vergonha pela monstruosidade do desgoverno.

O ex-capitão diz que não "vai viver como um rato", depois que o STF decidiu manter a condenação do tal Franceschini. Já tinha comemorado que o "seu" Supremo, o tal Kassio, o inocentara de uma cassação.

"Viver como um rato" é quando, por covardia e irresponsabilidade, alguém se nega a responder pelos próprios atos, apontando culpas pelas próprias omissões e desmandos, por leniência e ignorância, por sua inépcia e vassalagem a ideias e ideais que destroem os princípios de humanidade que nos conectam.

Ora pois. Viver como um rato é fugir, esconder-se e chamar um bando para encobrir aos berros a própria incapacidade. Não sei quem se comporta assim.

Ora, somos nós, brasileiros e brasileiras que não queremos viver como ratos: em casas semelhantes a esgotos insalubres, escondidos, com fogo, andando pela escuridão da desesperança, entorpecidos de medo pelas bravatas de um ex-capitão que não reconhece o esgoto em que deseja transformar o Brasil.