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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Tragédias acontecem": Bolsonaro é prova a disso

Presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa no Recife, onde fortes chuvas deixaram ao menos 79 mortos - Reprodução/TV Brasil
Presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa no Recife, onde fortes chuvas deixaram ao menos 79 mortos Imagem: Reprodução/TV Brasil
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

31/05/2022 11h23Atualizada em 31/05/2022 11h50

A incapacidade de demonstrar empatia do ex-capitão, que agora resolveu seguir a cartilha do marketing para ir até o Recife, onde 93 pessoas foram sepultadas pela tragédia de políticas públicas insuficientes.

Os eventos climáticos previstos e previsíveis pela ciência - cujo descrédito pelo atual governo é notório - serão cada vez mais recorrentes e o levantamento das vítimas desses acontecimentos terá números cada vez maiores.

Nos últimos seis meses, o país assistiu estarrecido aos deslizamentos e engolfamento de centenas de pessoas em diversas regiões - Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e agora Pernambuco. São os moradores dos locais que se mobilizam, com apoio de destemidas forças locais, nem sempre totalmente preparadas para salvar soterrados e ilhados.

Mas o foco da campanha agora é o destemor do ex-capitão na alcova. Quando a mulher dele, agora cabo eleitoral do marido, tem o objetivo de reduzir a resistência das mulheres ao atual candidato à reeleição presidencial. Enquanto ele passeia pelo Grande Recife para xingar adversários e normalizar a tragédia - sim tragédias acontecem, pessoas morrem, é só uma gripezinha - ela ocupa o espaço de mídia para utilizar o jargão dele, com a ideia de um mito. De pés de barro, se vistos à meia distância.

A verve declaratória do ex-capitão não tem reciclagem possível - sim, Genivaldo foi um assassinato, mas "justiça sem exagero". A fala dele reflete - o que insisto em repetir - absoluta ausência de referências intelectuais e emocionais. O entendimento mínimo do significado de empatia e senso de responsabilidade. A facilidade com que justifica atos de brutalidade é escandalosa.

Enxerga o mundo por uma fresta. Pelo buraco da violência, da destruição, da negação e também reflexo da própria incapacidade de se identificar com os seres humanos. Amalgamado a uma corte de servis que possuem as mesmas deficiências.

Sim, tragédias acontecem. E sim, muitas tragédias podem ser evitadas por atitudes responsáveis de mapeamento de riscos e de ações preventivas e consequentes.

O ex-capitão foi uma tragédia anunciada, em que os riscos mapeados não foram levados em conta pela esperteza e oportunismo de uns muitos, que entenderam que a tragédia provocada por ele, e representada por ele, seria menor e menos letal que "a corrupção", que um "estado intervencionista e uma economia não liberal".

Aquelas que são as vítimas da grande tragédia que é o ex-capitão - o povo brasileiro - vistas de longe pela comunidade internacional com perplexidade, diante do que representa o desmonte de políticas socioambientais e da barata-tonta do desgoverno - podem compreender, agora, o alcance das suas escolhas.

A tragédia que se repete pelo descaso para com os riscos é a manifestação do desrespeito à vida.

Bolsonaro é a prova de que tragédias acontecem. E que não precisam se repetir.

A todas as vítimas do Grande Recife, os sentimentos - insuficientes - de solidariedade.

Não é preciso que tragédias se repitam para nos ensinarem o valor da vida.