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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Baixar preço de gasolina é agonia de Bolsonaro, candidato do fim do mundo

26/05/2022 - Arthur Lira (PP) com Jair Bolsonaro (PL) durante evento para industriais em Belo Horizonte - Estevam Costa/PR
26/05/2022 - Arthur Lira (PP) com Jair Bolsonaro (PL) durante evento para industriais em Belo Horizonte Imagem: Estevam Costa/PR
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

07/06/2022 15h26Atualizada em 07/06/2022 15h26

O ex-capitão faz a política do fim do mundo para salvar a própria pele. Quer vender a iniciativa de reduzir os impostos para os combustíveis como se fosse um gesto consequente, às custas de uma fantasia momentânea com prazo de validade até dezembro. Quer pressionar os governadores a aceitar o jogo às custas de recursos destinados à saúde, à educação e à segurança pública dos estados. Por uma fantasia de curta duração.

Faz de conta que quer de fato melhorar a vida das pessoas e, de afogadilho, anuncia um pacote de "bondades", a bordo da rejeição eleitoral, na realidade o ponto central das suas iniciativas.

A confusão no Palácio do Planalto é tão visível quanto invisíveis são as ações do desgoverno para cumprir as suas responsabilidades. O jogo da política do fim do mundo é empurrar para terceiros as consequências das próprias inações. Nisso o ex-capitão é especialista e a sua corte, pragmática. Se não der certo o barateamento, a culpa é dos governadores ou dos deputados ou dos senadores.

Mas busca alianças que não o deixam sozinho. Arthur Lira faz coro com o ex-capitão em qualquer circunstância e vira bibelô em entrevista coletiva para anúncio improvisado. O tal ex-posto Ipiranga passeia pelo desgoverno como se tivesse alguma voz, mas feliz com o cargo. Rodrigo Pacheco, aparentemente pego de surpresa para a festa - o que a sonolência interrompida dele explica. Todos compõem o cenário para uma agenda de marketing político eleitoral, pelo anúncio de redução de impostos federais, que depende de uma emenda constitucional.

A estratégia do desgoverno. A fala do ex-capitão: "Eu estou tentando matar a carestia provocada pela alta do preço da gasolina e do diesel, mas não me deixam!"

E foi assim com o STF, quando reconheceu poder dos governadores em aplicar medidas restritivas durante a pandemia. A mesma cantilena de quem prefere andar de jet ski e comer camarão com volúpia a socorrer desabrigados por tragédias ambientais.

O desgoverno do fim do mundo opera movido a pesquisa de intenção de votos, nem de longe olhando a população, porque as suas medidas são datadas. Preço de gasolina mais barato até dezembro. Assim como precisou rever a data de auxílio emergencial, transmutado em Auxílio Brasil para contornar a previsão do fim do benefício.

O ato pré-carnavalesco do ex-capitão, anunciando benesses - e pode-se duvidar que virão - é insuficiente para responder à carência alimentar e à inflação, mas indica o desespero do desgoverno e da turma palaciana para produzir algum fato novo que tire dos trilhos a eleição do ex-presidente Lula - e fantasma dos fantasmas! - no primeiro turno.

Operando no varejo, mais preocupado em salvar mandato de deputado acusado de praticar fake News, e para isso mobiliza o "seu" STF. O André Mendonça - que não nos deixa esquecer a sua comemoração emocional tardia, mas finalmente acontecida, na nomeação para o Tribunal - recebe o recado do "chefe", em live comemorativa da decisão do colega Kassio, livrando o deputado. Pede vistas do processo, para que o bolsonarista siga ileso.

No desgoverno do fim do mundo é assim que funciona. O que fica esquecido são políticas sustentáveis que garantam resultados para que se enxergue um futuro que não nos envergonhe.

Aqueles que se levantam contra a omissão do Estado correm risco de morrer. Alguns morrem. No grito contra a milícia morreram Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes, assassinados em crimes não esclarecidos.

Na Amazônia, cujo usufruto da sua biodiversidade foi entregue a exploradores de garimpo ilegal, a desmatadores e a gangues de predadores, desaparecem, no universo perverso do abandono, o indigenista Bruno Araújo e o jornalista inglês Dom Philips, previamente ameaçados de morte.

É o desgoverno do fim do mundo, que tenta esconder da população orçamentos secretos e vender soluções mágicas para problemas que criou, por inépcia, omissão e descompromisso com o país, com o povo, com a democracia, e que naufraga diante do que não consegue ocultar, graças à data de hoje: Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.