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Plínio Fraga


Lula começou em Recife a campanha de 2022 repetindo o erro de 2018

17.nov.2019 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa no Festival Lula Livre, no Recife - Adriano Machado/Reuters
17.nov.2019 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa no Festival Lula Livre, no Recife Imagem: Adriano Machado/Reuters
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

18/11/2019 10h29Atualizada em 18/11/2019 16h33

A noite de 17 de novembro de 2019 será lembrada pelo início da campanha eleitoral da oposição, a 1.050 dias do pleito presidencial de 2022. Pode ser que tenha sido a arrancada antecipada para a vitória redentora ou o primeiro pilar da construção de um retumbante fracasso. Em um caso ou em outro, o responsável terá sido o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lançando-se em campanha sem saber se poderá ser candidato efetivo, Lula começa a disputa de 2022 repetindo o erro de 2018. Sua sombra matará no nascedouro a construção de qualquer candidatura alternativa viável ou a costura de uma aliança ampla de oposição. Se houver Lula na cédula em 2020, estará com Lula quem está com Lula _ uma parcela relevante de um terço do eleitorado que lhe permite uma largada forte, mas insuficiente para assegurar a metade dos votos que necessita para a vitória.

Lula sabe disso. Passou a tarde de domingo em Recife conversando com integrantes de outros partidos de esquerda, em especial com a família Campos, que domina o PSB de Pernambuco desde época do governador Eduardo Campos. A proposta de aliança que apresenta à mesa não tem nome, mas tem a voz rouca e a barba branca como as de Lula, coisa que os interlocutores logo percebem.

O petista aposta suas chances na anulação pelo STF de sua condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Voltaria assim a ser ficha limpa e poderia novamente ser candidato. Ainda é réu em uma dezena de outros processos que permaneceriam como uma espada de Dâmocles a poder ceifar lhe a candidatura de uma hora para outra nos próximos dois anos e dez meses. Acredita que a maré político-jurídica virou a seu favor, mas está julgando a condição do mar pelas águas do rio Capibaribe. Se obtiver a anulação de sua condenação no STF, nada assegura que escapará da condenação em segunda instância em dez outros inquéritos até o pleito de 2022.

Desde a saída da prisão em 8 de novembro, o petista já havia discursado em atos improvisados em Curitiba e em São Bernardo. O que tornou a manifestação de Recife diferente foi o caráter de comício deliberado e a multidão que o ouviu. Os organizadores falaram no improvável número de 250 mil participantes, mas os mais realistas calculam em 20 mil pessoas presentes. Pouco perto das multidões que tomaram as ruas em 2013 e 2016, mas bastante superior, por exemplo, às manifestações realizadas neste mesmo domingo em São Paulo e no Rio de Janeiro em favor do impeachment do ministro do STF Gilmar Mendes e em defesa de Bolsonaro e Sergio Moro.

O marco zero escolhido por Lula foi simbolicamente Recife, a mais importante capital do Nordeste, região na qual a reprovação a Bolsonaro atinge 52%, a maior do país.

Pode-se dizer que a campanha do presidente Jair Bolsonaro à reeleição começou em seu primeiro dia de governo, porque todo presidente faz o mesmo. Desde a redemocratização em 1989, governar exige resultados principalmente para que o incumbente possa tentar se manter no cargo por dois mandatos permitidos pela Constituição. Nestes 11 meses de bolsonarismo, o maior adversário do presidente até então tinha sido ele próprio e o exército brancaleone que o rodeia. As agruras do primeiro ano de Bolsonaro tiveram origem entre seus próprios aliados, com a oposição episódica se dividindo em insucessos calados como os de Fernando Haddad e os insucessos estridentes, como os protagonizados por Ciro Gomes.

Em 20 minutos de discurso em Recife, Lula mostrou-se em forma _alguns quilos mais magro e com circunspectos cabelos brancos em destaque. De paletó preto, camisa cinza e calças azuis, anunciou-se um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia. "Sou mais maduro. Aprendi que nada derrota as pessoas que se amam neste país." Enumerou como obra bolsonarista a destruição dos empregos, a destruição da aposentadoria, a destruição das universidades, a destruição da ciência e tecnologia, a destruição da cultura. Responsabilizou o presidente pelo estímulo ao feminicídio e aos ataques a negros, índios e pessoas LGBTs. "Cada minuto de vida que tenho pela frente será dedicado para libertar desta quadrilha de miliciano que tomou conta do país", discursou.

Criticou o ministro Sergio Moro, o procurador Deltan Dellagnol e a Rede Globo por "alimentarem a mentira" contra si. Citou em seu discurso dois ícones locais: Frei Caneca e Padre Roma, líderes da Revolução Pernambucana, o primeiro movimento separatista do Brasil Colônia. Fez mais sucesso quando saudou Lia do Itamaracá, a maior cantora de ciranda do Estado

Notável em seu discurso foi a total falta de referência à questão ambiental _ fosse às queimadas na Amazônia ou ao derramamento criminoso de óleo na costa brasileira.

No estilo confessionário que usou no palanque, anunciou seu casamento com a socióloga Rosângela da Silva, a quem chamou ao palco como "Janjinha". Revelou que a conheceu em 23 de dezembro de 2017, na inauguração do estádio Dr. Sócrates, construído pelo MST em Guararema (SP). Terminou o discurso com uma declaração picante. "Quando digo que sou homem com a experiência de 74 anos, com a energia de 30 e com o tesão de 20 é porque ninguém fará com que eu pare de lutar para que nossos filhos tenham uma vida melhor do que a nossa e que o nosso país apague definitivamente a sofreguidão de 300 anos de escravidão."

Como registrou o psiquiatra Roberto Freire em livro famoso dos anos 80, sem tesão não há solução. Resta saber se a experiência e a energia de Lula estão sendo canalizadas para o canal mais virtuoso ou apenas para o mais prazeroso.

Plínio Fraga